Yuki, a neve de pelos brancos
A neve derreteu, mas a água se eternizou.
Ele trouxe o inverno e o verão no coração. Yuki quer dizer neve, em japonês, mas entre nós foi sempre fogo discreto, chama doméstica, centelha miúda que aquecia a casa inteira.
Veio do Rio de Janeiro correndo, literalmente apressado, como se já soubesse que a vida seria isso: movimento de quem ama, respiração compartilhada. Naquele primeiro trajeto, quando foi buscado para ser companhia de crianças ainda pequenas em São Luís, ele não era apenas um filhote atravessando o Brasil enquanto se consolidava como uma promessa atravessando o tempo.
Os anos, que para nós são calendários, para os cães são instantes longos e plenos. Dezessete anos couberam em seu corpo minúsculo como se transubstanciam as eras em montanhas. Ele viu meus filhos crescerem, testemunhou a casa mudar de ritmos, encarou as responsabilidades que pesavam no tempo e depois se transformarem em histórias.
Sempre ali. Não como móvel, nem cenário, mas testemunha diária. Havia momentos em que parecia dizer, com o silêncio atento dos animais sábios: eu estou feliz de vocês viverem.
Insistente. Mas não aquela que cansa, chata, inconveniente. Era perseverança que sustenta, guia e consola. Exigia apenas o essencial mais raro: estar junto. Não pedia luxo, nem conquistas, tampouco negociava afetos. Sua demanda era uma só, insistência cotidiana como mantra: presença.
Se alguém se afastava, ele chamava. Se a porta se fechava, esperava. Quando a tristeza chegava, deitava-se ao lado. Como quem sabe que, às vezes, salvar o mundo é simplesmente não sair de perto. O melhor presente é a presença – algo que os sábios indianos entendem mas que nós gostamos de trocar por objetos para tentar satisfazer nossos amados.
Cobrava Anamaria com o olhar paciente de quem conhece relógios invisíveis. Mariana e Vitor pediam fotos dele como quem solicita dados de um farol. Marcela preocupada e enunciando “Yuki tem jeito não”! Porque ele era isso: pequena luz doméstica, candeeiro constante, vela intensa orientando o caminho de volta para casa, mesmo quando todos já se encontravam nela.
Apesar de ser minúsculo, carregava a gravidade dos guardiões antigos. Havia nele algo de sentinela medieval, de monge guerreiro. O corpo cabia na mão mas a coragem não se encerrava na sala. Qualquer ruído estranho era enfrentado. Ameaça imaginadas eram repelidas. O mundo lá fora podia ser vasto e duro, mas dentro de casa, do seu território ninguém passava sem ser anunciado.
Era neve e era rocha.
Os banhos eram batalhas. Não aceitava facilmente a ideia absurda de submeter os seus pelos exuberantes à água e ao sabão. Parecia ofendido, ultrajado em sua dignidade canina. O protesto vinha depois, cerimonial e inevitável: primeiro a corrida pela casa, a sede enorme, a fome antiga, e por fim o xixi calculado, assinatura líquida de um manifesto contra aquela violência perfumada do banho não solicitado.
Era sua forma de enunciar que a natureza tem suas regras e que algumas invenções humanas são, no mínimo, suspeitas.
E ainda assim, terminado o ritual de revolta, retornava para perto. Sempre vinha.
Com o passar dos anos, o tempo começou a cobrar seu tributo silencioso. Tempo – esse senhor incompreensível! A pata traseira deixou de responder como antes, e o corpo, que já fora seta, virou arco. Corcunda, avançava lento. Mas que velho não enverga? Que coluna atravessa décadas sem aprender a se curvar diante da gravidade do existir? O que para nós é ladeira, nele seria resistência. Cada passo mais curto era uma vitória. Cada movimento custoso era um ato de bravura.
Ele não compreendia relógios, mas entendia o momento presente. E no agora continuava lutando. Estoico, como os sábios que suportam o peso do mundo sem reclamar do céu. Guerreiro, como os que permanecem de pé mesmo quando o corpo implora descanso. Havia dor, certamente e, no entanto, mais vontade que incomodo. Mais amor que limite.
Yuki não desistiu da vida mas ela, com delicadeza inexorável, ponderou da necessidade de seguir adiante.
Era festa e vigília, preguiça e alerta, doçura e braveza. Cabia em muitas formas sem deixar sua personalidade e presença. Ainda bebê, correndo atrás de nada com alegria absoluta. No final, ancião, parado ao sol como quem contempla um horizonte invisível. Mas rei em seu território. Nas outras vezes, um simples cachorro que, com carinho, oferecia a barriga como quem demanda confiança.
Sua maior riqueza era a permanência. Não aquela inanimada das rochas, dos móveis da sala ou das pedras da Fonte do Ribeirão, mas a permanência viva do rio Grajaú. Estava sempre passando e sempre ficando. A casa respirava em seu ritmo. O silêncio tinha o som dele. A rotina tinha sua identidade delicada no chão.
Quando a idade o curvou, não foi derrota. Era a nova maneira de estar. O guerreiro virou sábio. O guardião virou memória. O correr virou estar aqui. E permanecer é o gesto mais heroico que existe.
Hoje, a neve fez o caminho inverso e ascendeu.
Não houve tempestade nem ruído. Apenas o instante inevitável em que o tempo fecha os olhos de quem muito testemunhou. Partiu há poucos minutos, mas já atravessou décadas de lembranças. Porque a morte, quando visita quem viveu tanto junto, não leva apenas um corpo, ela espalha presença inexorável. Ele já não ocupa o chão, mas toma conta do ar. Já não late às portas, mas abre outras invisíveis dentro das que quedamos.
A corrida iniciada no Rio de Janeiro não terminou. Apenas mudou de terreno. Agora ele anda por onde o peso não existe, as patas não falham, nenhum banho é imposto e nenhuma coluna se curva. Corre leve, talvez olhando para trás com aquele mesmo olhar de cobrança amorosa, como quem pergunta: vocês estão aí?
Estamos.
A neve derreteu, mas a água se eternizou.
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