COLUNA
Rogério Moreira Lima
Engenheiro e professor da Uema, é embaixador da Abracopel, especialista da Abee Nacional e diretor da Abtelecom e da AMC.
Rogério Moreira Lima

Da Ponte ao Algoritmo: o Hackathon de Inteligência Artificial do CREA-MA

Hackathon do CREA-MA propõe soluções tecnológicas para análise de acervos técnicos e elaboração de orçamentos de engenharia.

Rogério Moreira Lima

A história da engenharia confunde-se com a própria história da capacidade humana de compreender e transformar o mundo. Das obras de arte especiais, como pontes, viadutos e grandes túneis, às energias renováveis, das redes 5G e da TV 3.0 à inteligência artificial e à computação quântica, os avanços tecnológicos vêm redefinindo continuamente a forma como os engenheiros projetam, analisam e executam soluções para a sociedade. No início do século XXI, uma nova ferramenta passa a assumir papel central nesse processo de transformação: a inteligência artificial.

Ao longo das últimas décadas, diferentes marcos tecnológicos contribuíram para moldar a evolução da engenharia contemporânea. Em 1973, o engenheiro eletricista Martin Cooper realizou a primeira ligação utilizando um telefone celular portátil, marco que abriu caminho para o desenvolvimento da telefonia móvel, implantada comercialmente nos Estados Unidos em 1983 e no Brasil em 1990. Na década de 1980 difundiram-se os sistemas de desenho assistido por computador, conhecidos como CAD, ao mesmo tempo em que se iniciou a digitalização das redes de telecomunicações com hierarquias digitais como PDH e SDH, permitindo o transporte de grandes volumes de dados por meio de sistemas baseados em fibra óptica. Nos anos 1990 a internet passou a se popularizar globalmente e, nas décadas seguintes, a evolução das redes móveis conduziu ao desenvolvimento das tecnologias 3G, 4G e 5G. Nesse ambiente de crescente digitalização da infraestrutura tecnológica, a inteligência artificial emerge como uma das ferramentas mais poderosas da engenharia no século XXI.

É nesse contexto de transformação tecnológica que iniciativas voltadas à inovação passam a ganhar espaço dentro das próprias instituições profissionais da engenharia.

O Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Maranhão, CREA-MA, anuncia a realização do 2º Hackathon CREA-MA, uma maratona de inovação tecnológica que reunirá profissionais da engenharia, agronomia, tecnologia e áreas afins para desenvolver soluções voltadas a dois desafios estratégicos do Sistema CONFEA/CREA. O evento acontecerá nos dias 28 e 29 de março de 2026, em São Luís.

Após o sucesso da primeira edição, que reuniu dezenas de profissionais em torno de problemas reais da engenharia maranhense, o CREA-MA amplia sua aposta na inovação como instrumento de transformação institucional e de geração de valor para os profissionais registrados. A organização do evento está a cargo da Voa Inovação, consultoria especializada na realização de hackathons corporativos e programas de inovação.

No Hackathon do CREA-MA 2026 foram definidos dois desafios centrais para os participantes.

O primeiro envolve um tema diretamente relacionado à trajetória profissional dos engenheiros: a Certidão de Acervo Técnico, conhecida como CAT. Esse documento constitui um dos principais instrumentos de comprovação da experiência técnica em projetos e obras, sendo frequentemente exigido em processos de licitação e contratação de serviços de engenharia. A análise para emissão da CAT exige a verificação de diversos documentos, como contratos, atestados e Anotações de Responsabilidade Técnica, o que demanda tempo e atenção na avaliação das informações apresentadas.

Nesse contexto, o desafio consiste no desenvolvimento de uma solução baseada em inteligência artificial capaz de auxiliar na análise desses documentos, identificando informações relevantes, organizando dados e contribuindo para a verificação de eventuais inconsistências. Uma ferramenta com essas características pode reduzir significativamente o tempo de análise e aumentar a segurança técnica e jurídica do processo.

O segundo desafio aborda uma dificuldade recorrente enfrentada por muitos profissionais da engenharia, especialmente aqueles que atuam de forma autônoma ou em pequenos escritórios: a elaboração de orçamentos técnicos confiáveis e competitivos. A ausência de ferramentas acessíveis faz com que muitos profissionais dependam de planilhas improvisadas ou estimativas pouco estruturadas, o que pode comprometer a precisão dos valores apresentados.

A proposta do hackathon é desenvolver uma ferramenta digital capaz de auxiliar na elaboração de orçamentos técnicos de forma mais estruturada e confiável, utilizando referências de custos e metodologias padronizadas. Uma solução dessa natureza pode contribuir para maior profissionalização e transparência nas contratações de serviços de engenharia.

A percepção comum muitas vezes associa a engenharia exclusivamente às grandes obras de infraestrutura e à construção civil. No entanto, a engenharia constitui um campo muito mais amplo, que inclui áreas como sistemas elétricos, telecomunicações, eletrônica, automação e computação. A engenharia não se limita ao concreto e ao aço. Ela também se manifesta em algoritmos, sistemas digitais e tecnologias que estruturam a infraestrutura informacional da sociedade contemporânea.

Mais do que uma competição tecnológica, iniciativas como essa representam uma mudança de paradigma na forma como instituições tradicionais da engenharia se relacionam com a inovação. Conselhos profissionais historicamente associados às atividades de registro e fiscalização do exercício profissional passam também a estimular o desenvolvimento de soluções tecnológicas voltadas à melhoria de processos e à valorização da atividade profissional.

Outro aspecto relevante é o caráter multidisciplinar desse tipo de iniciativa. Hackathons reúnem engenheiros, desenvolvedores de software, cientistas de dados e designers em ambientes colaborativos voltados à resolução de problemas complexos.

Ao apostar na inteligência artificial como tema central do evento, o CREA-MA sinaliza que a engenharia brasileira precisa acompanhar as transformações tecnológicas que caracterizam o mundo contemporâneo. A transformação digital já está em curso em praticamente todos os setores da economia, e a engenharia precisa estar presente nesse processo não apenas como usuária de novas tecnologias, mas também como protagonista em seu desenvolvimento.

O Hackathon do CREA-MA 2026 simboliza esse movimento de aproximação entre engenharia, inovação e tecnologia digital. Ao mobilizar estudantes, profissionais e pesquisadores para resolver desafios concretos por meio da inteligência artificial, o evento demonstra que a engenharia continua sendo uma das principais forças capazes de transformar conhecimento em soluções para os desafios da sociedade.

Se no século XX a engenharia construiu pontes, barragens, sistemas elétricos e grandes redes de telecomunicações, no século XXI ela também será protagonista na construção das infraestruturas digitais e dos sistemas inteligentes que sustentam a nova economia baseada em dados.

No fundo, a missão permanece a mesma: transformar conhecimento científico em soluções capazes de melhorar a vida das pessoas. Apenas mudaram as ferramentas. Hoje, entre elas, está a inteligência artificial.


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