COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Os ramos e a fama

Talvez o mais inquietante não seja a oscilação da multidão, mas a nossa familiaridade com ela.

Kécio Rabelo

Há cenas que não envelhecem, apenas mudam de cenário.

A entrada de Jesus Cristo em Jerusalém é uma dessas. Não há como atravessá-la sem sentir o rumor da multidão. Os ramos de oliveira agitados no ar, os mantos estendidos pelo caminho, os gritos que se erguem como uma onda: “Hosana!” Há festa, há esperança, há um certo deslumbramento coletivo. É o tipo de entusiasmo que não se explica, apenas se contagia, como aquele visto e sentido nas arquibancadas de um estádio de futebol.

A cidade acolhe. A multidão celebra. A fama, ali, tem cheiro de vitória.

Mas Jerusalém, como o mundo, gira rápido.

Poucos dias depois, na mesma cidade, talvez nos mesmos rostos, já não se levantam ramos, mas vozes duras. O coro mudou. Onde antes havia aclamação, agora há sentença. Já não se grita “Hosana”, mas “crucifica-o”. O entusiasmo se converte em rejeição com uma velocidade desconcertante.

E talvez seja aí que a cena antiga se torna profundamente atual. O que teria mudado em menos de uma semana? Jesus mudou seu discurso? Fez opções diferentes? Ou foi a euforia que passou?

Vivemos tempos de ramos digitais.

A fama, hoje, também se constrói com gestos coletivos: curtidas, compartilhamentos, comentários que sobem como gritos invisíveis nas redes. Em poucos minutos, alguém é elevado, celebrado, admirado, seguido. Cria-se uma espécie de Jerusalém virtual, onde o reconhecimento parece imediato e incontestável.

Mas essa mesma multidão que exalta é a que descarta.

A lógica é a mesma, apenas mais veloz.

Não há mais dias entre o “Hosana” e o “crucifica-o”; às vezes, bastam horas. Um erro, uma fala mal interpretada, uma mudança de humor coletivo, e aquilo que era aplauso se converte em ataque. A fama, que parecia sólida, revela-se frágil como folha de palmeira ao vento.

O que sustenta essa dinâmica não é a verdade, é a conveniência.

A multidão raramente ama pessoas; ama projeções. Ama aquilo que pode confirmar seus desejos, suas expectativas, suas narrativas. Quando essas imagens deixam de servir, são descartadas sem cerimônia. Não há compromisso com o outro, apenas com o uso que dele se faz.

É a cultura do instante, de um instante cada vez mais curto e, ao mesmo tempo, mais vazio, incapaz de deixar algo, incapaz de levar algo.

Tudo precisa ser imediato, impactante, consumível. E, como todo produto de consumo rápido, também precisa ser substituível. A mesma mão que levanta o ramo é a que, logo depois, se cansa dele.

Talvez o mais inquietante não seja a oscilação da multidão, mas a nossa familiaridade com ela.

Quantas vezes também não participamos desse movimento? Quantas vezes não aplaudimos sem conhecer, julgamos sem compreender, descartamos sem refletir? A história de Jerusalém não está apenas no passado, ela se repete, silenciosamente, em cada gesto coletivo apressado. Entre os ramos e a cruz há um intervalo curto, mas revelador. O que agrada, em geral, é o aparente; a mensagem, por sua vez, desconcerta, desinstala e, por isso mesmo, desagrada.

Ele expõe a fragilidade da fama construída sobre o entusiasmo superficial. Expõe a volubilidade de uma sociedade que consome pessoas como consome notícias. Expõe, sobretudo, a necessidade de recuperar algo que parece cada vez mais raro: a permanência.

Permanecer diante do outro, mesmo quando o brilho inicial passa. Permanecer no discernimento, quando a multidão grita. Permanecer na verdade, quando o aplauso é mais fácil.

Jesus, acompanhado e exaltado pela multidão no domingo, Jesus, humilhado e solitário na cruz da sexta-feira, parece nos dizer algo que vai além da exegese e da teologia desses dois cenários.

Talvez seja essa a lição mais silenciosa daquela caminhada em Jerusalém.

Os ramos passam. A fama oscila. A multidão muda.

Mas o que permanece, isso sim, é o que verdadeiramente importa.


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