COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão e pós-graduado em Direito. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

Muito além dos noventa minutos

Há guerras que acabam no dia em que silenciam as armas

Vítor Sardinha

Muito além dos noventa minutos (Reprodução)

Há guerras que acabam no dia em que silenciam as armas. Outras continuam existindo, escondidas na memória de quem sobreviveu. Passam os anos, mudam as gerações, mas basta um acontecimento para que uma antiga cicatriz volte a pulsar.

A semifinal entre Argentina e Inglaterra na Copa do Mundo de 2026 é um desses momentos. Para milhões de pessoas, será apenas um grande jogo de futebol. Para argentinos e ingleses, porém, a bola carregará muito mais do que noventa minutos de disputa. Carregará lembranças de uma guerra que nunca encontrou um verdadeiro ponto final. As Ilhas Malvinas deixaram de ser apenas um território. Tornaram-se parte da identidade de uma nação.

Foi assim que, em 1986, um dos episódios mais conhecidos da história do futebol ganhou um significado que ultrapassou o gramado. O gol de Diego Maradona, eternizado como a “Mão de Deus”, foi interpretado por muitos argentinos como uma vingança simbólica. Para eles, aquele lance representava uma espécie de justiça divina, não porque pudesse apagar a guerra ou devolver os mortos, mas porque devolvia, ainda que apenas no imaginário popular, um sentimento de dignidade. Para os ingleses, continuou sendo um gol irregular. Para muitos argentinos, tornou-se a resposta que jamais puderam dar no campo de batalha.

Talvez eu escreva sobre isso com tanta proximidade porque tive o privilégio de viver alguns anos na Argentina, onde cursei meu doutorado em Direito. Antes mesmo de compreender o país pelos livros, comecei a entendê-lo pelas ruas. Percebi rapidamente que ali o futebol não era apenas um esporte. Era uma linguagem. Falava de orgulho, de identidade, de perdas e de esperança.

Foi nas aulas do professor Eugenio Raúl Zaffaroni, um dos maiores criminalistas da América Latina, que aprendi uma lição que nunca mais esqueci: compreender um conflito exige olhar além dos fatos. O Direito não vive apenas dos códigos. Vive das pessoas. Anos depois, percebi que o futebol argentino fazia exatamente a mesma coisa. Um processo nunca conta toda a história. Um jogo de futebol também não.

Lembro-me de uma conversa em um café de Buenos Aires. Bastou alguém mencionar as Malvinas para que a mesa inteira mudasse de assunto sem mudar de expressão. Ninguém elevou a voz. Ninguém discutiu. Havia apenas um silêncio respeitoso, daqueles que revelam uma dor antiga. Foi ali que compreendi que as Malvinas não pertenciam apenas aos historiadores, aos juristas ou aos livros. Pertenciam às famílias.

Convivendo com os argentinos, entendi também por que Maradona ocupava um lugar quase sagrado na memória popular. A “Mão de Deus” nunca foi celebrada como uma simples infração. Para muitos, simbolizava um raro instante em que um povo ferido acreditou ter reencontrado um pouco da dignidade perdida. Não mudava a História. Não devolvia os mortos. Mas, por noventa minutos, fazia parecer que a dor havia encontrado uma resposta, ainda que apenas dentro de um estádio.

Nenhuma vitória devolve os que partiram. Nenhum troféu reescreve a História. Mas cada geração pode escolher se continuará alimentando antigas feridas ou se aprenderá a transformá-las em memória, e não em ressentimento.

Daqui a pouco haverá um vencedor. É assim que o futebol acontece. Mas que, desta vez, vença também a memória sem ódio, o respeito sem fronteiras e a paz entre os povos. Que Deus permita que a bola continue unindo aquilo que a guerra um dia separou. Porque os troféus passam, os campeões mudam, mas a dignidade humana sempre será a maior de todas as vitórias.


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