COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio rabelo

A Toalha Molhada

É curioso como a falta de pequenos limites quase sempre produz grandes consequências.

Kécio rabelo

Durante muitos anos, achei que minha mãe estava apenas implicando com uma toalha.

Eu saía do banho, jogava a toalha molhada sobre a cama e seguia a vida. Não demorava muito, e vinha a voz, firme, do outro cômodo:

— Tire essa toalha da cama.

Naquele tempo, parecia um exagero. O que uma toalha poderia causar? Eu não compreendia por que um gesto tão pequeno merecia tanta insistência e até alguma chateação.

Um dia desses, peguei-me pensando sobre essa toalha.

Aquela insistente correção, na verdade, era sobre aprender que as nossas ações deixam marcas, mesmo quando parecem insignificantes. Entender que existe um lugar para cada coisa, um tempo para cada cuidado. Respeitar a casa, o trabalho de quem a mantém e, sem que eu percebesse, respeitar também a mim mesmo.

A personalidade raramente é construída por grandes acontecimentos. Ela nasce na repetição despretensiosa dos pequenos gestos. No “bom dia” dito todos os dias. No copo levado à pia. Na cama arrumada antes de sair. No pedido de licença antes de interromper alguém. No lixo recolhido, mesmo quando não fomos nós que o deixamos ali. Na toalha retirada de cima da cama.

São hábitos tão discretos que quase passam despercebidos. Mas, pouco a pouco, eles deixam de organizar apenas a casa e começam a organizar um pouco de quem somos.

Muitos  confundem liberdade com ausência de responsabilidade. Estacionam em vagas reservadas porque “é só um minuto”. Jogam lixo pela janela do carro porque “alguém vai limpar”. Falam ao mesmo tempo que os outros, interrompem conversas, não devolvem o carrinho do supermercado ao lugar, deixam espaços comuns como se não pertencessem a ninguém. Nenhum desses gestos é, isoladamente, uma tragédia. Mas todos revelam uma maneira de compreender o mundo: a de que o próprio conforto vale mais do que o bem comum.

É curioso como a falta de pequenos limites quase sempre produz grandes consequências. Quem nunca aprendeu a cuidar de uma toalha dificilmente entenderá, mais tarde, por que deve cuidar de um patrimônio público, de um ambiente de trabalho ou de uma relação humana. O caráter não muda de tamanho; ele apenas encontra situações maiores para se manifestar.

Com o tempo, a voz da minha mãe deixou de vir do outro quarto. Passou a morar dentro de mim. Ainda hoje, quando vejo uma toalha molhada sobre a cama, quase automaticamente a retiro. Não por medo de uma repreensão, mas porque aquele gesto já faz parte de mim.

Penso que toda educação para a liberdade produz esse efeito: transforma uma voz externa em consciência interior. Quando isso acontece, já não precisamos que alguém nos vigie. Fazemos o que é certo porque aprendemos que o certo tem valor em si mesmo.

Os pais imaginam que estão corrigindo um detalhe do cotidiano. Na verdade, estão esculpindo uma maneira de existir no mundo. A educação não acontece apenas nas grandes conversas sobre ética, caráter ou futuro. Ela também mora nas pequenas insistências que, quando crianças, julgamos desnecessárias.

É possível que nenhuma criança compreenda, naquele instante, por que precisa guardar os brinquedos, agradecer, pedir desculpas ou tirar a toalha da cama. Mas a vida compreende. E, mais cedo ou mais tarde, devolve, em forma de convivência, de confiança e de respeito, aquilo que um dia foi aprendido dentro de casa.

A toalha secou há muito tempo.

O ensinamento, não.


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