literatura

Como Gustavo Scarpa fez Tolstói, Golding e outros clássicos chegarem a novos leitores

Com resenhas na web, Gustavo Scarpa impulsiona clássicos como A Morte de Ivan Ilitch ao topo das vendas e inspira clubes de leitura entre torcedores.

Na Mira, com informações da CNN

- Atualizada em 06/10/2026 às 14h12
Como Gustavo Scarpa fez Tolstói, Golding e outros clássicos chegarem a novos leitores.
Como Gustavo Scarpa fez Tolstói, Golding e outros clássicos chegarem a novos leitores. (Reprodução/@scarpinha)

BRASIL - A literatura ganhou um novo espaço de circulação nas redes sociais pelas mãos de um leitor pouco convencional. Gustavo Scarpa, jogador do Atlético-MG, passou a compartilhar resenhas de livros e acabou levando clássicos como “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, a milhares de pessoas. O movimento ultrapassou as redes e chegou às listas de livros mais vendidos, além de estimular a criação de clubes de leitura entre torcedores.

O caso mais expressivo aconteceu com a obra de Tolstói. Depois que Scarpa publicou uma resenha sobre o livro, o vídeo ultrapassou 730 mil visualizações e “A Morte de Ivan Ilitch” chegou ao primeiro lugar entre os livros mais vendidos da Amazon Brasil. A repercussão chamou a atenção até da Embaixada da Rússia, que entrou em contato com o jogador e manifestou interesse em promover uma ação literária com ele.

Desde 31 de agosto, Scarpa publicou seis vídeos dedicados a livros. A seleção passa por diferentes épocas, estilos e autores, reunindo obras como “Seus Olhos Viam Deus”, de Zora Neale Hurston, “O Senhor das Moscas”, de William Golding, “A Noite”, de Elie Wiesel, “Flores Para Algernon”, de Daniel Keyes, e “A Cabeça do Santo”, da escritora brasileira Socorro Acioli.

Um jogador falando sobre livros

A relação de Scarpa com a literatura, no entanto, não começou com a repercussão nas redes. O jogador conta que lê desde a infância e atribui parte desse hábito ao incentivo do pai, que o estimulava a ler e até recorria a livros e legendas como forma de aproximá-lo da língua inglesa.

O primeiro livro de que se lembra é “Tonico e Carniça”. Durante a pandemia, o hábito se intensificou e chegou a ocupar boa parte de sua rotina. Em determinado período, Scarpa conta ter lido dois livros no mesmo dia.

Entre as obras que marcaram sua formação também estão a biografia de Steve Jobs, presente recebido de uma tia em 2018, e “O Médico e o Monstro”, indicado por um integrante da comissão técnica do Palmeiras.

A literatura também acabou se tornando uma forma de Scarpa falar sobre assuntos que vão além das histórias dos livros. Entre seus autores preferidos estão Fiódor Dostoiévski, C. S. Lewis e Victor Hugo. Segundo ele, a preferência é por obras que provoquem reflexão e permaneçam na cabeça depois da leitura.

Para o jogador, o contato frequente com a literatura contribuiu para torná-lo mais crítico e empático.

Da resenha ao clube de leitura

A repercussão das indicações também mostrou que o interesse por literatura pode encontrar novos caminhos quando chega a públicos que tradicionalmente não são associados aos livros.

A partir das conversas provocadas pelas publicações de Scarpa, torcedores do Atlético-MG criaram o Galeitura, clube de leitura que já ultrapassou 100 mil seguidores no Instagram. A proposta aproximou futebol e literatura sem transformar os livros apenas em acessórios do universo esportivo.

A iniciativa também inspirou movimentos semelhantes entre torcidas de outros clubes, como Cruzeiro, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Vasco e Grêmio.

O fenômeno chamou atenção justamente por colocar a leitura no centro de uma conversa que começou fora do ambiente tradicionalmente associado à literatura. Em vez de uma indicação feita por uma editora, um professor ou um crítico literário, os livros passaram a circular a partir da experiência de um leitor conhecido principalmente por sua atuação no futebol.

Literatura sem a obrigação de parecer acadêmica

Scarpa também já falou sobre a insegurança de produzir análises literárias sem ter formação acadêmica na área. A solução encontrada foi justamente abandonar a tentativa de reproduzir uma crítica especializada e falar sobre os livros a partir da própria experiência como leitor.

As resenhas, que inicialmente apareciam de maneira mais breve nas redes sociais, ganharam vídeos mais longos no YouTube. O formato permitiu que ele desenvolvesse suas impressões sobre as obras e explicasse por que determinados livros o marcaram.

A escolha ajuda a explicar parte da repercussão. Em vez de apresentar a literatura como um conhecimento restrito a especialistas, Scarpa a transforma em assunto de conversa entre leitores.

O resultado é um fenômeno que vai além da popularidade de um jogador nas redes sociais. Clássicos e obras contemporâneas passaram a alcançar novos públicos, clubes de leitura surgiram a partir das indicações e uma obra publicada em 1886, como “A Morte de Ivan Ilitch”, voltou a ocupar o topo das vendas no Brasil.

No caso de Scarpa, o futebol abriu a porta para que muita gente chegasse aos livros. Mas, uma vez aberta, foi a literatura que passou a conduzir a conversa.

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