Aos 70 anos e com Alzheimer, aluna apresenta TCC na UFMA e se aproxima do sonho de ser professora
Aos 70 anos, estudante com Alzheimer, Conceição de Maria, supera desafios de memória e apresenta TCC em Pedagogia na UFMA, em Imperatriz, no Maranhão.
IMPERATRIZ –Aos 70 anos, Conceição de Maria Sousa Soares alcançou uma das etapas mais importantes de uma trajetória acadêmica marcada pela persistência. Estudante de Pedagogia da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no câmpus de Imperatriz, ela apresentou o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e ficou ainda mais perto de realizar um sonho que carrega há décadas: tornar-se professora.
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Diagnosticada com Alzheimer, Conceição precisou enfrentar dificuldades relacionadas à memória durante a graduação, além de se adaptar ao uso de tecnologias e à rotina universitária. Para continuar os estudos, contou com estratégias de organização, acompanhamento da família e apoio de professores e da coordenação do curso.
O trabalho, intitulado “Relatos e memórias da escolarização de uma mulher piauiense”, foi apresentado no formato de Portfólio de Experiências, sob orientação do professor José Edilmar de Sousa. A coordenadora do curso de Pedagogia, professora Francisca Melo Agapito, também acompanhou o processo.
Nascida em Veredinha, na zona rural de Amarante, no Piauí, Conceição teve uma trajetória escolar marcada por interrupções e pela alfabetização tardia. Essas experiências pessoais acabaram se tornando parte central do próprio TCC.
No trabalho, ela recupera lembranças da infância, da vida familiar, dos primeiros contatos com a educação e da mudança para o Maranhão, além de registrar momentos vividos durante a graduação.
Sonho do ensino superior atravessou décadas
Segundo Francisca Soares Lima, de 48 anos, filha de Conceição, o desejo da mãe de concluir um curso superior existia havia muitos anos.
“Ela tinha o desejo de ter um curso superior. Não é à toa que a alfabetização dela foi tardia. Depois de tanto tempo, vê-la realizar esse sonho foi muito gratificante”, afirmou.
A vontade de seguir estudando permaneceu mesmo diante das dificuldades enfrentadas ao longo da vida. Durante a graduação, um dos principais desafios estava relacionado à memória.
De acordo com o orientador José Edilmar, Conceição passou a utilizar cadernos como uma ferramenta essencial de organização. Neles, anotava datas, compromissos, orientações dos professores e informações importantes sobre as disciplinas.
“A estratégia que ela utilizava era anotar. Ela anotava tudo”, contou o professor.
Quando precisava comparecer à universidade em determinado dia ou lembrar a data de início de uma disciplina, por exemplo, Conceição recorria aos registros feitos à mão. Segundo o orientador, a estratégia ajudava a reduzir os impactos das dificuldades de memória imediata e permitia que ela acompanhasse melhor a rotina acadêmica.
TCC transforma memórias pessoais em trajetória acadêmica
A escolha pelo Portfólio de Experiências foi definida após professores e a coordenação do curso avaliarem qual formato permitiria que Conceição desenvolvesse o trabalho final de maneira adequada às necessidades apresentadas durante a graduação.
A proposta foi discutida com a coordenação e posteriormente submetida ao colegiado do curso de Pedagogia, que autorizou a adaptação.
No portfólio, Conceição reuniu relatos sobre a infância na zona rural do Piauí, as experiências de escolarização, a mudança da família para o Maranhão e diferentes momentos de sua trajetória acadêmica. Parte dessas memórias foi relatada oralmente e depois transcrita para integrar o trabalho.
A família também contratou uma neuropsicopedagoga para acompanhar a estudante e auxiliar na mediação das narrativas utilizadas durante a elaboração do TCC.
Na apresentação, a banca examinadora fez perguntas relacionadas às experiências e memórias registradas no trabalho. Além do orientador José Edilmar de Sousa, participaram da avaliação as professoras Francisca Melo Agapito e Késsia Mileny de Paulo Moura.
Para José Edilmar, acompanhar Conceição também representou um processo de aprendizado sobre a importância de adaptar a comunicação e considerar as necessidades individuais de cada estudante.
“Eu aprendi muito com a história da dona Conceição. Foi algo que me possibilitou muitos aprendizados, especialmente sobre aquilo que eu chamo de uma pedagogia da escuta”, afirmou.
“Eu vou me formar e vou ser professora”
O sonho de trabalhar como professora acompanhava Conceição havia muitos anos. Segundo o orientador, ela relatava com frequência durante a graduação o desejo de concluir o curso e seguir na área da educação.
O marido, já falecido, também teria sido um dos incentivadores para que ela continuasse os estudos.
Em alguns momentos da graduação, familiares demonstraram preocupação com o ritmo das atividades e com a saúde da estudante. Segundo José Edilmar, a preocupação estava relacionada aos cuidados com Conceição e não representava falta de apoio ao projeto de formação acadêmica.
Mesmo diante das dificuldades, ela mantinha a decisão de seguir em frente.
“Ela dizia: ‘Eu vou mostrar para vocês que eu vou me formar, que eu vou ser professora’”, relembrou o professor.
As próprias experiências de vida de Conceição também passaram a integrar debates realizados em sala de aula. Em uma discussão sobre a relação entre família e escola, por exemplo, ela compartilhou com os colegas como acompanhava a vida escolar dos próprios filhos.
Para a família, a apresentação do trabalho final representa a concretização de uma conquista construída durante décadas.
“Depois de tanto tempo, vê-la realizar seu sonho foi muito gratificante. O sentimento é de gratidão”, afirmou a filha, Francisca.
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