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COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão, pós-graduado em Direito e vice-presidente do Moto Club. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

A voz que não pediu permissão

Aqui, migrar nunca foi exceção; sempre foi necessidade.

Vítor Sardinha

Atualizada em 13/02/2026 às 16h33
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Divulgação. (Reprodução)

O intervalo do Super Bowl costuma ser esse território neutro onde tudo é calculado para agradar sem ferir. Um espetáculo feito para entreter, vender, distrair. Mas naquele domingo, algo saiu do script. Não houve pedido de licença. Houve afirmação.

Bad Bunny entrou em cena carregando mais que música. Carregava uma história inteira nos ombros, a sua e a de tantos outros que aprendem cedo o significado da palavra fronteira. Cantou em espanhol diante do maior palco do entretenimento americano, como quem se recusa a diluir a própria identidade para caber num molde. E, no meio da dança e da luz, deixou escapar o que realmente importava: a denúncia silenciosa da perseguição, da exclusão, da dor que atravessa quem é obrigado a partir.

No Maranhão, essa história não soa distante. Aqui, migrar nunca foi exceção; sempre foi necessidade. Quantas casas guardam fotografias amareladas de quem foi embora em busca de trabalho? Quantas mães aprenderam a medir o tempo pelas ligações escassas? Quantos filhos cresceram ouvindo promessas de retorno que a vida tratou de adiar?

Falar de imigração é falar dessas ausências cotidianas que se naturalizam. É falar do jovem que parte cedo demais, do pai que envelhece esperando, da terra que continua fértil, mas pouco acolhida. Por isso, quando um artista transforma um intervalo em recado, ele não fala apenas de um país ou de um governo. Ele toca numa ferida que muitos preferem manter coberta.

O presidente Trump que criticou, sequer estava no estádio. A ausência também é uma forma de discurso. Aqui sabemos disso. Quantas vezes o poder olha para longe enquanto a vida real acontece? Quantas vezes a festa é mantida enquanto a dor é empurrada para fora do enquadramento? No Maranhão, aprendemos a reconhecê-la nas promessas não cumpridas, nos investimentos que não chegam, nos olhares que desviam.

Ainda assim, algo se move quando alguém rompe o silêncio. Mesmo que dure apenas treze minutos. Mesmo que seja num palco distante. Porque existem gestos que atravessam oceanos com mais facilidade do que discursos oficiais. Existem vozes que encontram eco justamente onde há mais escuta do que poder.

Quando o show acabou e o jogo recomeçou, tudo parecia voltar ao normal. Aqui, a segunda-feira amanheceu quente, apressada, desigual. Mas ficou no ar uma sensação difícil de nomear: Talvez esperança, talvez reconhecimento. A certeza de que identidade não se negocia. De que falar a própria língua, ocupar o próprio espaço e contar a própria história ainda é um ato profundamente político.

No Maranhão, onde o povo aprendeu a resistir com calma e persistência, sabemos: nem toda coragem faz barulho. Algumas apenas se levantam, cantam como sabem e seguem. E isso, às vezes, é mais revolucionário do que qualquer espetáculo.


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