em São Luís

Doméstica grávida agredida recebeu R$ 750 para montar enxoval que custa até R$ 3 mil em SL

A reportagem pesquisou preços de enxovais em lojas de São Luís e encontrou valores entre R$ 1,6 mil e R$ 3 mil para itens básicos de bebê.

Imirante.com

Jovem disse que aceitou o trabalho para conseguir dinheiro para o enxoval do filho, mas recebeu apenas R$ 750 após
Jovem disse que aceitou o trabalho para conseguir dinheiro para o enxoval do filho, mas recebeu apenas R$ 750 após (TV Mirante)

SÃO LUÍS –  Grávida de cinco meses, uma empregada doméstica de 19 anos aceitou um trabalho no Maranhão com o objetivo de juntar dinheiro para comprar o enxoval do bebê. O que seria uma oportunidade de renda terminou em agressões, trauma e no pagamento de apenas R$ 750, valor que, segundo levantamento feito pela reportagem, não cobre sequer os itens básicos para recém-nascidos em lojas da Grande São Luís.

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A jovem afirma que trabalhou por pouco mais de duas semanas, com jornada de quase 10 horas por dia e acúmulo de funções. Entre as atividades, segundo o depoimento, estavam limpar a casa, cozinhar, lavar e passar roupas, além de cuidar do filho da ex-patroa, uma criança de 6 anos.

Enxoval básico custa mais que o valor recebido

A reportagem pesquisou preços de fraldas, roupas, mamadeiras e kits de higiene em lojas da capital maranhense. Os valores de um enxoval considerado básico variam entre R$ 1,6 mil e R$ 3 mil.

Já enxovais mais completos podem custar entre R$ 5 mil e R$ 15 mil. Em uma das lojas consultadas, mesmo com produtos em promoção, a soma dos itens chegava a cerca de R$ 2,5 mil. O valor ultrapassa até mesmo o que a jovem receberia caso tivesse completado um mês de trabalho, com salário previsto de R$ 1.621.

Ex-patroa é presa em Teresina, Piauí

A suspeita de agredir a empregada doméstica é a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos. Ela foi presa nesta quinta-feira (7), em Teresina, no Piauí, e transferida para São Luís, onde chegou no fim da tarde.

De acordo com a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA), Carolina foi presa quando tentava fugir. A empresária foi localizada após parar em um posto de combustíveis no bairro São Cristóvão, próximo à Secretaria de Segurança Pública do Piauí.

A defesa de Carolina nega que ela estivesse tentando fugir. A advogada Nathaly Moraes afirmou que a investigada estava no Piauí porque tem um filho de 6 anos e não tinha familiares no Maranhão com quem pudesse deixar a criança. Segundo a defesa, ela levou o menino para ficar sob os cuidados de pessoas de confiança.

A advogada também disse que Carolina não pretende se omitir, que cumprirá as determinações judiciais e responderá apenas pelo que for comprovado no devido processo legal, nas esferas cível e criminal.

A Justiça do Maranhão havia decretado a prisão preventiva da empresária após pedido da Polícia Civil. Equipes foram à residência dela para intimá-la a prestar depoimento, mas Carolina não foi encontrada. No local, segundo a polícia, havia apenas uma funcionária chamada às pressas para assumir o serviço.

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Policial militar também foi preso

O policial militar Michael Bruno Lopes Santos, suspeito de participar das agressões contra a doméstica grávida, também teve a prisão preventiva decretada. Ele se entregou à polícia nesta quinta-feira (7).

Em depoimento, o PM negou ter agredido a vítima. Segundo a Polícia Civil, ele seria o homem citado pela jovem como um dos responsáveis pelas agressões e tortura sofridas dentro da residência onde ela trabalhava.

O policial afirmou que conhecia Carolina havia seis anos. Segundo ele, no dia 16 de abril, um dia antes do crime investigado, recebeu uma ligação do marido da empresária pedindo que levasse um documento à casa do casal para tratar do aumento de score de um cliente.

Ainda conforme o depoimento, no dia 17 de abril, data das agressões, ele chegou à residência por volta das 8h e entregou os documentos ao casal.

Jovem diz que foi ameaçada de morte

No depoimento, a empregada doméstica relatou que foi agredida com puxões de cabelo, tapas, socos e murros. Ela disse ainda que foi derrubada no chão e tentou proteger a barriga durante os ataques, por estar grávida de cinco meses.

Segundo a jovem, a ex-patroa a acusou de ter roubado uma joia e passou horas procurando o objeto. O anel foi encontrado depois dentro de um cesto de roupas sujas.

Mesmo após a joia ser localizada, as agressões teriam continuado. A vítima afirmou ainda que foi ameaçada de morte por Carolina caso procurasse a polícia.

“Começou com puxões de cabelo. Eu fui derrubada no chão e passei boa parte do tempo ali. Foram tapas, socos e murros. Foi sem parar. Eles não se importavam”, disse a jovem.

A vítima também relatou que um homem participou das agressões. Segundo ela, o suspeito foi até a casa para pressioná-la com violência. Ele foi descrito como alto, forte e moreno.

A Ordem dos Advogados do Brasil classificou o caso como tortura agravada, além de lesão corporal, ameaça e calúnia.

Por meio de nota, Carolina Sthela afirmou que repudia qualquer forma de violência, especialmente contra mulheres e pessoas em situação de vulnerabilidade, e pediu que não haja julgamento antecipado enquanto o caso é apurado.

Rotina de trabalho tinha jornada de quase 10 horas

A jovem afirmou que recebeu R$ 750 por pouco mais de duas semanas de trabalho. Segundo ela, a rotina era de segunda a sábado, das 9h às 19h, com apenas 30 minutos de intervalo.

O pagamento teria sido feito de forma fracionada, por meio de transferências em nome de terceiros. A vítima disse ainda que começou a trabalhar sem ter combinado previamente o salário.

De acordo com o depoimento, o primeiro contato com a empresária ocorreu por aplicativo de mensagens, no início de abril. Na ocasião, teria sido oferecido um mês de trabalho, com início após um encontro na residência.

Áudios atribuídos à empresária relatam agressões

Áudios enviados pela própria empresária e obtidos pela TV Mirante foram anexados ao inquérito, segundo a Polícia Civil. Nas mensagens, Carolina relata as agressões e afirma que a vítima “não era para ter saído viva”.

“Quase uma hora essa menina no massacre, e tapa e murro e pisava nos dedos. Tudo que vocês imaginarem de doidice, era eu e ele fazendo”, disse Carolina em um dos áudios.

Em outra mensagem, a empresária afirma que contou com a ajuda de um homem, ainda não identificado, para pressionar a empregada de forma violenta. Segundo ela, o homem chegou armado à residência na manhã do dia 17 de abril.

PMs que atenderam ocorrência são afastados

Quatro policiais militares que atenderam a ocorrência foram afastados das funções. A informação foi confirmada pela Polícia Civil à TV Mirante.

A medida foi tomada após a divulgação dos áudios atribuídos à empresária. Nas gravações, Carolina afirma que não foi levada à delegacia porque conhecia um dos policiais que atenderam a ocorrência.

Segundo ela, o agente teria dito que, por causa dos hematomas na vítima, a empresária deveria ter sido conduzida à delegacia, o que não aconteceu.

Empresária responde a mais de dez processos

A Polícia Civil informou que Carolina Sthela responde a mais de dez processos. Em um deles, de 2024, ela foi condenada por calúnia após acusar falsamente uma ex-babá de roubar uma pulseira de ouro.

A pena de seis meses em regime aberto foi substituída por prestação de serviços comunitários. A empresária também foi condenada a pagar indenização de R$ 4 mil por danos morais.

A ex-babá Sandila Souza, que move outro processo contra Carolina, afirmou que começou a trabalhar na casa da empresária aos 17 anos. Segundo ela, o pagamento pelo serviço também era feito por contas de terceiros, nunca diretamente pela patroa.

Sandila disse ainda que a indenização por danos morais não foi paga.

“Ela olhou pelas câmeras. Foi no mesmo momento em que me viu saindo com as minhas malas e falou que ia à delegacia dizer que eu tinha roubado a pulseira do filho dela. Eu falei: ‘Eu não roubei a pulseira do seu filho, mas, se você quiser ir lá, pode ir, porque tem câmera em todo lugar’”, relatou.

O que diz a empresária sobre agressão contra doméstica

Em nota, Carolina Sthela Ferreira dos Anjos afirmou que repudia qualquer forma de violência, especialmente contra mulheres, gestantes, trabalhadoras e pessoas em situação de vulnerabilidade.

A empresária também declarou que respeita a atuação das autoridades, que não se negou a colaborar com as investigações e que sua defesa adotará as providências necessárias para apresentar sua versão no momento adequado.

"Diante das publicações e comentários que vêm circulando na imprensa e nas redes sociais a respeito do IPL nº 066/2026 — 21º Distrito Policial do Araçagy/MA, venho me manifestar com serenidade e respeito.

Em primeiro lugar, afirmo que respeito profundamente a atuação das autoridades e que jamais me neguei a colaborar com a apuração dos fatos. Minha defesa já compareceu à delegacia, solicitou acesso aos autos e adotará todas as providências necessárias para que minha versão seja apresentada no momento adequado, de forma responsável e dentro do procedimento legal.

Também registro que repudio qualquer forma de violência, especialmente contra mulheres, gestantes, trabalhadoras e pessoas em situação de vulnerabilidade. Justamente por reconhecer a gravidade do assunto, entendo que tudo deve ser apurado com seriedade, equilíbrio, provas e respeito ao devido processo legal.

Minha família, incluindo meu marido e meu filho, vem sofrendo ataques e ameaças. Isso não contribui para a verdade, não ajuda a investigação e apenas aumenta o sofrimento de todos os envolvidos.

Requeiro que não haja julgamento antecipado e que o inquérito seja conduzido em observância aos princípios constitucionais. A investigação ainda está em andamento, e a verdade deve ser esclarecida pelas vias legais, jamais por ameaças, ofensas, exposição de familiares ou linchamento virtual.

Seguirei à disposição das autoridades, por meio da minha defesa, confiando que os fatos serão esclarecidos com responsabilidade, respeito, técnica e justiça.

Paço do Lumiar - MA, 05 de maio de 2026.

Carolina Sthela Ferreira dos Anjos" .

O que diz o PM sobre a suspeita de envolvimento no caso

A defesa de Michael Bruno Lopes Santos informou que ainda não teve acesso integral aos autos e aos elementos que fundamentaram a medida contra o policial.

Em nota, a defesa afirmou que Michael nega qualquer agressão ou ato de violência e que sua versão será apresentada nos autos após análise técnica do procedimento.

"A defesa de Michael Bruno Lopes Santos informa que acompanha com atenção as notícias divulgadas nas últimas horas e esclarece que ainda não teve acesso integral aos autos, às peças formais da investigação e aos elementos que fundamentaram a medida adotada.

Michael nega a prática de qualquer agressão ou ato de violência e afirma que sua versão será apresentada tecnicamente nos autos, pelos meios próprios, após a defesa conhecer o conteúdo integral do procedimento.

É importante registrar que, antes da repercussão mais recente, Michael compareceu à Corregedoria da Polícia Militar do Maranhão, onde prestou declarações formais e respondeu aos questionamentos que lhe foram feitos.

Neste momento, a defesa está adotando as providências cabíveis para obter acesso aos autos, verificar a legalidade dos atos praticados e assegurar o pleno exercício das garantias constitucionais, especialmente o contraditório, a ampla defesa e a presunção de inocência.

Novos esclarecimentos serão prestados, se necessário, após a análise técnica dos documentos oficiais.

Assessoria Jurídica de Michael Bruno Lopes Santos".

Nota da SSP sobre a prisão da empresária

"A Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA) informa que Carolina Sthela Ferreira dos Anjos, investigada por agressões contra uma jovem grávida no município de Paço do Lumiar, foi presa nesta quinta-feira (7), em Teresina (PI), quando tentava fugir.

A prisão foi realizada pelas Polícias Civis do Piauí e do Maranhão, em ação de cooperação entre as forças de segurança dos dois estados, após trabalho de Inteligência e cumprimento de mandado expedido pela Justiça na madrugada de hoje.

O policial militar Michael Bruno Lopes Santos, citado nas denúncias, também foi preso, em São Luís, e responde a procedimento instaurado pela Corregedoria da PMMA para apuração de sua conduta e responsabilidade no caso.

As investigações seguem em andamento para completa apuração dos fatos, identificação de todos os envolvidos e adoção das medidas cabíveis".

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