Kécio Rabelo
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COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Fragmentos de mim mesmo

Um rosto para a vida pública, outro para os bastidores, outro para as redes sociais e outro para dentro de casa.

Kécio Rabelo

A aparência da virtude parece, muitas vezes, valer mais do que a própria virtude.

Nunca se falou tanto em ética. Nunca se produziram tantos discursos sobre respeito, justiça, empatia e responsabilidade social. A palavra ocupa palanques, entrevistas, campanhas publicitárias, legendas de redes sociais e pronunciamentos cuidadosamente preparados. Ainda assim, cresce a sensação coletiva de que há algo desalinhado entre aquilo que se diz e aquilo que se vive.

Talvez a grande crise do nosso tempo não seja apenas econômica, política ou institucional. Talvez seja, antes de tudo, uma crise de coerência, em todos os níveis acima mencionados, mas também no âmago da existência humana.

A vida pública tornou-se terreno fértil para personagens. Defende-se moralidade enquanto se negociam princípios no silêncio dos bastidores. Fala-se em democracia sem suportar divergências. Exalta-se a dignidade humana ao mesmo tempo em que se humilha quem serve, quem depende, quem pensa diferente ou ocupa posições menos visíveis.

Mas seria confortável demais imaginar que esse problema pertence apenas à política.

Ele atravessa também nossas relações pessoais.

Está na amizade mantida apenas enquanto é útil. Nos afetos administrados como contratos frágeis. Na facilidade com que se exige lealdade sem oferecer presença. Na rapidez com que se cobra sinceridade vivendo, ao mesmo tempo, de versões cuidadosamente editadas de si mesmo.

A incoerência deixou de ser exceção. Em muitos ambientes, tornou-se método de adaptação social.

Os antigos chamavam isso de ausência de caráter. Hoje preferimos expressões mais suaves, menos definitivas, talvez porque elas nos permitam conviver melhor com nossas próprias contradições.

Mas a ética nunca foi um adorno intelectual. Nunca existiu para decorar discursos ou biografias públicas. Ética é aquilo que permanece quando o palco se esvazia. É a maneira como alguém age quando não há aplausos, câmeras ou recompensas imediatas.

E isso custa.

Custa porque coerência exige limites. Obriga renúncias. Impõe perdas. Há vantagens concretas para quem flexibiliza princípios conforme a conveniência do momento. Há ganhos rápidos para quem transforma valores em peças de ocasião.

Gosto bastante de uma canção de Oswaldo Montenegro chamada “A Lógica da Criação”, que parece dialogar com tudo isso. A música lembra, de maneira delicada e, ao mesmo tempo, inquietante, que criar a própria existência exige fidelidade interna. Que não basta construir uma imagem admirável; é preciso sustentar uma vida minimamente alinhada ao que se proclama.

Eis um dos maiores dramas contemporâneos: a multiplicação de personagens.

Um rosto para a vida pública, outro para os bastidores, outro para as redes sociais e outro para dentro de casa.

A fragmentação tornou-se tão natural que, muitas vezes, já nem percebemos o abismo entre quem aparentamos ser e quem efetivamente somos.

No entanto, a vida cobra unidade.

Nem sempre pelos tribunais ou pelas manchetes. Às vezes, cobra no silêncio das relações que se desgastam. Na perda lenta da credibilidade. Na incapacidade de sustentar vínculos profundos. Ou naquela sensação incômoda de não conseguir mais reconhecer a própria verdade por trás de tantas versões fabricadas.

A ética, no fundo, exige exatamente isso: a teimosa tentativa de permanecer inteiro em um mundo que constantemente nos incentiva à fragmentação.

Porque uma sociedade não se deteriora apenas quando perde dinheiro, estabilidade ou poder. Ela começa a ruir quando perde a capacidade de confiar na palavra, no compromisso e na coerência das pessoas.

E nenhuma tecnologia, estratégia política ou narrativa sofisticada consegue substituir aquilo que continua sendo a base substancial de toda convivência humana: a integridade.


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