Felipe Fernandes
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COLUNA
Felipe Fernandes
Felipe Fernandes é engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro.
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Bem-te-vi que tenta copiar João de Barro acaba ajudante do pedreiro

No mundo dos negócios, é exatamente isso que acontece com quem vive de olho na concorrência

Felipe Fernandes

Existe uma expressão aqui no Maranhão que sempre me fez pensar. Diz, mais ou menos, que o passarinho que vive tentando acompanhar o João de Barro acaba se perdendo no caminho. Cada um conta de um jeito. A minha versão é esta: bem-te-vi que tenta copiar João de Barro acaba ajudante do pedreiro.

Quem já observou os dois pássaros entende a graça. O João de Barro constrói uma casa robusta, trabalhada, feita do jeito dele, com as ferramentas e os instintos que são dele. O bem-te-vi tem outra natureza. É ágil, atento, corajoso — enfrenta aves muito maiores para defender o que é seu, e tem um canto tão próprio que dá nome a ele mesmo. Não constrói casa de barro porque nunca precisou. As forças dele são outras. E é justamente por isso que, se resolver imitar o João de Barro, não vai construir uma casa melhor. Vai apenas se desviar daquilo que sabe fazer e terminar carregando tijolo para a obra do outro.

No mundo dos negócios, é exatamente isso que acontece com quem vive de olho na concorrência.

Observar a concorrência é inteligente. Ignorá-la seria ingenuidade. Mas existe uma diferença enorme entre observar e imitar — e é nessa diferença que muitos empresários se perdem. Eles veem o concorrente baixar o preço e baixam o preço. Veem o concorrente lançar um produto e correm para lançar um parecido. Veem o concorrente abrir uma unidade e sentem que precisam abrir também. Cada movimento do outro vira um reflexo no próprio negócio. E, sem perceber, deixam de dirigir a própria empresa para apenas reagir à empresa alheia.

O problema de imitar a concorrência começa por um detalhe que quase ninguém considera: o seu concorrente não conhece a sua empresa. Ele não sabe da sua estrutura de custos, não conhece a sua equipe, não tem ideia da sua realidade financeira e não faz a menor noção da sua estratégia de longo prazo. Quando você copia uma decisão dele, está adotando a escolha de alguém que não possui nenhuma das informações que você possui. Pior: muitas vezes o concorrente também está errado. Ele também faz besteira. Ele também toma decisões ruins. E, ao copiá-lo, você apenas importa o erro dele para dentro de casa — com a desvantagem de não saber sequer por que ele fez aquilo.

Há ainda um efeito mais silencioso, e mais perigoso. A concorrência não mexe apenas com as suas decisões. Mexe com as suas emoções. O movimento do outro gera ansiedade, urgência e a sensação de que você está ficando para trás. E decisão tomada sob essa pressão raramente é boa estratégia. É reação emocional vestida de movimento estratégico.

Quem decide assim entrega o comando sem perceber. Porque quem reage está sempre jogando com a bola na posse do adversário. É o outro quem inicia o lance, é o outro quem define o ritmo, e a você resta apenas correr atrás. Você pode até correr muito. Mas corre sempre atrás — nunca na frente.

Existe ainda um custo maior. Ao copiar a concorrência, a empresa corre o risco de se afastar daquilo que a torna única. Vantagem competitiva nasce justamente daquilo que não pode ser copiado facilmente: cultura, posicionamento, recursos e estratégia. Quanto mais uma empresa imita, mais se dilui. E uma empresa diluída não vence a concorrência. Apenas se transforma numa versão inferior dela.

Por isso, diante de cada decisão importante, vale fazer uma única pergunta, simples e reveladora: eu faria isso se a minha concorrência não existisse?

Se a resposta for sim, a decisão provavelmente é estratégica — nasce da sua visão, do seu cliente e do seu plano. Se a resposta for não, é sinal de alerta. A decisão não está sendo guiada pela sua estratégia. Está sendo guiada pelo medo de ficar para trás. E medo é um péssimo conselheiro empresarial.

Observe a concorrência. Aprenda com ela, inclusive com os erros dela. Mas não a coloque no volante da sua empresa. Porque o destino que serve para o negócio do outro quase nunca é o destino que serve para o seu.

No fim, cada pássaro constrói a casa que a sua própria natureza pede. O João de Barro faz a dele. E o bem-te-vi, quando entende quem é, descobre que nunca precisou imitar ninguém para encontrar o seu lugar.


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