MARANHÃO – Ampliar o acesso de pessoas negras e indígenas à psicoterapia e oferecer um atendimento que considere os impactos do racismo sobre a saúde mental são alguns dos objetivos da plataforma Pense Minha Cor. A iniciativa, que tem Rômulo Mafra e Luara Matos como cofundadores, também reúne serviços de apoio jurídico, afroturismo e educação antidiscriminatória.
Segundo Rômulo Mafra, a criação da plataforma surgiu das experiências profissionais dos integrantes do projeto, que atuam nas áreas de psicologia, educação e produção cultural. Durante essa trajetória, o grupo percebeu a baixa presença de pessoas negras e indígenas em determinados espaços de atendimento e atuação profissional.
“A ideia surgiu através de nossa vivência profissional, enquanto psicólogas, educadoras e produtora cultural, que é a Luara. Observamos que esses espaços são ocupados majoritariamente por pessoas não negras, mesmo sendo mulheres. E que é necessário apresentar e demarcar esses lugares com pessoas negras e indígenas no nosso estado”, explicou o cofundador.
Rômulo afirma que o grupo chegou a participar anteriormente de outra instituição, mas encontrou dificuldades para desenvolver uma atuação alinhada às questões raciais e sociais defendidas pelos profissionais.
“Tivemos uma experiência em outro instituto onde tentamos imprimir essa nossa ideologia, porém esbarramos em uma frustração de não haver um encontro de ideais e ideias. Então pensamos: por que não criamos nossas próprias portas do tamanho que queremos e trazemos os nossos para passar junto delas? Ao invés de estreitar, alargar os caminhos”, afirmou.
Atendimento com consciência racial
A principal proposta da Pense Minha Cor é oferecer um atendimento psicológico com consciência racial. A abordagem considera que o sofrimento e o adoecimento mental não são provocados apenas por questões individuais, familiares ou biológicas, mas também pelas condições históricas e sociais nas quais cada pessoa está inserida.
“Significa compreender e acolher de forma crítica a realidade histórico-social do povo negro e indígena no Brasil. É sobre compreender que recortes e construções sociais atravessam o trabalho clínico da psicologia e, para além disso, interferem em subjetividades e produzem sofrimentos e adoecimentos”, explicou Rômulo.
Segundo o cofundador, compreender esses fatores é necessário para que a psicoterapia acolha experiências relacionadas ao racismo, à discriminação e à exclusão social.
“Porque sofrer e adoecer não possuem somente aspectos biológicos, mas também aspectos sociais”, ressaltou.
Racismo afeta saúde mental
Na avaliação de Rômulo Mafra, o racismo provoca um desgaste contínuo na saúde mental da população negra. Esse impacto pode ocorrer por meio de situações cotidianas de discriminação, incluindo as chamadas microagressões.
“Quando falamos sobre saúde mental, ainda é comum imaginarmos que o sofrimento psicológico é resultado apenas de conflitos individuais, traumas familiares ou dificuldades emocionais. Tudo isso importa. Mas existe outra dimensão que não pode ser ignorada: o impacto que as estruturas sociais exercem sobre a maneira como vivemos, sentimos e construímos nossa identidade”, afirmou.
De acordo com o cofundador, essas experiências se acumulam ao longo do tempo e podem provocar consequências emocionais que nem sempre são percebidas imediatamente.
“O racismo é um desgaste que não faz barulho. Chamamos academicamente de microagressões. Mas, no cotidiano, é um conta-gotas que nem sempre percebemos o quanto nos afeta, ao ponto de transbordar de forma inesperada o balde que simboliza nossa saúde mental”, comparou.
Rômulo acrescenta que o racismo estrutural interfere em diferentes aspectos da vida das pessoas negras e indígenas, desde a forma como se apresentam até os espaços onde circulam.
“A estrutura em que vivemos nos nega a possibilidade de ser, desde o penteado até o elevador em que andamos. Por isso, é tão necessário e urgente pessoas negras e indígenas cuidarem de sua saúde mental como cuidam dos dentes, por exemplo”, disse.
Plataforma reúne serviços
Além da psicoterapia, a Pense Minha Cor foi estruturada para funcionar como um hub, reunindo profissionais de diferentes áreas. Entre os serviços oferecidos estão auxílio jurídico, afroturismo e ações voltadas à educação antidiscriminatória.
“Conecta-se a partir do conceito de hub e comunidade. A Pense Minha Cor é uma empresa que atua a partir de diversos vetores e que reúne uma rede de profissionais parceiros”, afirmou Rômulo Mafra.
Segundo ele, a variedade de serviços busca atender de forma mais ampla às necessidades das populações negra e indígena, considerando a complexidade das relações étnico-raciais no país.
“Essa formatação foi desenhada pensando na complexidade estrutural das relações étnico-raciais brasileiras. Assim, compreendemos a necessidade e a importância de articular um trabalho sistemático que assista em integralidade as populações negras e indígenas no nosso país”, explicou.
O afroturismo, por exemplo, está ligado à valorização da história e da cultura africana, afro-brasileira e indígena. Já o suporte jurídico pretende auxiliar pessoas que enfrentem situações de violação de direitos.
“Articulamos e intervimos em aspectos como a democratização do acesso à psicoterapia, transitando pelo resgate da potência da história e da cultura de povos africanos, afro-brasileiros e indígenas por meio do afroturismo, direcionando-nos ao suporte jurídico e chegando até a promoção de uma educação básica e corporativa antidiscriminatória”, detalhou.
Valores acessíveis
A Pense Minha Cor também pretende oferecer atendimento psicológico com valores acessíveis para pessoas negras e indígenas em situação de vulnerabilidade econômica e social. De acordo com Rômulo, haverá uma avaliação para identificar quem se enquadra nos critérios estabelecidos pela plataforma.
“Sabendo que, pelo contexto social e racial do país, nem todos nós conseguimos alcançar o privilégio de fazer terapia, o Pense chega para ofertar isso. Para que as pessoas acreditem no valor possível, no cuidado que está ao alcance, priorizando e se organizando financeiramente”, afirmou.
O cofundador ressalta, no entanto, que a proposta de ampliar o acesso à psicoterapia deve estar acompanhada da valorização das profissionais que realizam os atendimentos.
“Há um filtro para os atendimentos. E, tão importante quanto, existe a valorização profissional. Tentamos chegar a um valor que seja acessível, mas, ao mesmo tempo, não desvalorize as profissionais, que também precisam de saúde mental, e a saúde econômica compõe essa integralidade”, concluiu.
Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.