Possível negligência e poucos médicos

MP-MA investiga alta de 159% nas mortes em UTIs do Hospital da Criança, em São Luís

Denúncias apontam redução das equipes médicas, profissionais sem especialização em pediatria e possíveis falhas no atendimento. Em 2025, 101 crianças morreram nas UTIs da unidade.

Imirante, com informações da TV Mirante

Atualizada em 14/07/2026 às 08h46

SÃO LUÍS - O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) investiga o aumento no número de mortes nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) do Hospital Odorico Amaral de Matos, o Hospital da Criança, em São Luís. Veja acima a reportagem completa da TV Mirante.

A apuração reúne reclamações encaminhadas à Ouvidoria-Geral do Sistema Único de Saúde (SUS). Os relatos mencionam possíveis casos de negligência e imperícia médica, redução das equipes e a incapacidade técnica de profissionais que atuam nas UTIs.

Segundo a denúncia, 113 crianças morreram no hospital em 2025. Desse total, 101 óbitos ocorreram dentro das três UTIs da unidade. Em 2024, haviam sido registradas 39 mortes nesses setores, o que representaria um aumento de 159%.

Mortes em UTIs do Hospital da Criança. (Arte: Reprodução/TV Mirante)
Mortes em UTIs do Hospital da Criança. (Arte: Reprodução/TV Mirante)

“Esses casos aí demonstram não somente uma negligência no atendimento, ao ter uma escala que não atende à demanda e à sobrecarga de trabalho dos médicos pediatras, como também, pelas prescrições, certamente imperícias por parte dessa equipe de profissionais do IBMED de Teresina”, afirmou o promotor de Justiça Herbert Figueiredo, da 1ª Promotoria de Justiça Especializada na Defesa da Saúde.

Mudança na gestão das UTIs é investigada

MP-MA apura 101 mortes em UTIs no Hospital da Criança. (Foto: Reprodução/TV Mirante)
MP-MA apura 101 mortes em UTIs no Hospital da Criança. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

O crescimento no número de óbitos coincide com a mudança na gestão das UTIs do Hospital da Criança. Em outubro de 2025, a Prefeitura de São Luís realizou uma licitação para contratar uma empresa responsável pelo gerenciamento dos setores. O Instituto Brasileiro de Serviços Médicos (IBMED) venceu o processo.

De acordo com a denúncia encaminhada ao Ministério Público, o novo contrato teria reduzido os recursos destinados ao funcionamento das UTIs e também o número de médicos responsáveis pelos atendimentos.

“Hoje nós trabalhamos lá com três médicos, um em cada UTI. E já foi levado para a direção, levado para as coordenações. Já foi falado, já foi dito de todas as formas que isso é ilegal, que é errado, que não pode, que não é assim”, relatou uma funcionária do hospital que pediu para não ser identificada.

A Defensoria Pública também apontou problemas no processo de contratação e recomendou a anulação do contrato. Entre as falhas mencionadas estavam a redução da equipe e a contratação de médicos sem a especialização exigida para o atendimento de crianças.

Segundo o Ministério Público, uma análise técnica identificou diversas irregularidades na licitação. “Há um parecer técnico-contábil da assessoria técnica do Ministério Público no qual há, realmente, a constatação não apenas de uma, mas de várias irregularidades no processo licitatório. O processo licitatório está eivado de nulidades que marcaram esse certame”, declarou o promotor.

O contrato poderá ser cancelado caso sejam comprovados atos de negligência ou imperícia relacionados às mortes. O MP-MA informou que abrirá um inquérito para apurar as responsabilidades.

Pais relatam possíveis falhas no atendimento

Familiares de crianças atendidas no hospital relatam falta de medicamentos, demora na realização de exames, redução das equipes e problemas no acompanhamento dos pacientes. Samila dos Santos Lobato e Ismael perderam os filhos gêmeos Bento e Bernardo, de quatro meses, em um intervalo inferior a 24 horas.

Os bebês moravam com a família em Rosário, no Maranhão, e foram levados ao Hospital da Criança após apresentarem sintomas gripais.

Pais de crianças que morreram no Hospital da Criança. (Foto: Reprodução/TV Mirante)
Pais de crianças que morreram no Hospital da Criança. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

Bento foi internado na madrugada de sábado, 27 de junho, com suspeita de bronquiolite. Segundo Samila, havia várias crianças intubadas aguardando atendimento quando ela chegou à unidade. Oito horas depois, Bernardo também foi internado.

“Quando eu entrei, meu coração esfriou porque vi várias crianças entubadas. Quando chegou a vez do meu filho, a médica o avaliou e disse que a solução seria entubá-lo”, contou Samila.

O estado de saúde de Bento se agravou. O bebê sofreu duas paradas cardiorrespiratórias, foi transferido para a UTI, mas morreu.

A declaração de óbito aponta como causas da morte insuficiência renal aguda, pneumonia, pneumotórax e choque séptico — estágio mais grave da sepse, uma infecção generalizada que provoca uma resposta inflamatória intensa no organismo.

Enquanto Bento era enterrado em Rosário, Bernardo permanecia internado em São Luís. Segundo a família, o bebê ainda reagia quando a mãe retornou ao hospital após o enterro do irmão. Bernardo foi intubado, mas não chegou a ser transferido para uma UTI. Ele morreu na quinta-feira, dia 2, por volta das 9h.

O pai das crianças registrou um boletim de ocorrência em São Luís. (Foto: Reprodução/TV Mirante)
O pai das crianças registrou um boletim de ocorrência em São Luís. (Foto: Reprodução/TV Mirante)

“É uma sensação horrível saber que levei meus filhos vivos. Eles olhavam para mim, e eu pensava que iam salvar a vida dos meus filhos, mas não”, afirmou a mãe. “Enterrar dois filhos em menos de 24 horas é inadmissível. Faltou atenção, faltou profissionalismo”, declarou Ismael.

O pai registrou um boletim de ocorrência em São Luís. Segundo o delegado Joviano Furtado, um inquérito policial foi instaurado para investigar as circunstâncias das mortes.

Em São Luís, Leyciane Barbosa e André também perderam o filho Otton, que tinha comorbidades e fazia tratamento. A criança foi internada com uma infecção intestinal e morreu após passar pela unidade.

Profissionais apontam redução da equipe

Profissionais de saúde que acompanham a rotina do Hospital da Criança também relataram mudanças nas condições de trabalho depois da troca na gestão das UTIs. Segundo os funcionários, além da redução do número de médicos, houve alterações no perfil técnico da equipe contratada.

Parte dos novos profissionais não teria experiência ou especialização em pediatria, apesar de trabalhar em um hospital voltado exclusivamente ao atendimento infantil. “Chegou uma nova equipe que, até onde a gente soube, todos deveriam ser pediatras. Mas, durante esse processo, fomos descobrindo que não são”, afirmou um profissional que pediu para não ser identificado.

Outro médico, também sob condição de anonimato, disse que a falta de experiência teria afetado diretamente o atendimento.

Respostas das autoridades

Por meio de nota, a Prefeitura de São Luís informou que não houve aumento no número de óbitos no Hospital da Criança, mas apenas uma variação de 4,5% entre 2024 e 2025, passando de 112 para 117 mortes.

A gestão municipal também assegurou que o quadro de profissionais das UTIs cumpre integralmente as exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Além disso, destacou que não há registros oficiais de desabastecimento generalizado de insumos e que o fluxo de materiais hospitalares segue um planejamento contínuo.

A Prefeitura também afirmou que a licitação e o contrato firmado com o IBMED cumprem rigorosamente a legislação e que o Tribunal de Contas do Estado do Maranhão (TCE-MA) negou os pedidos de suspensão e arquivou as representações apresentadas contra o município.

O Conselho Regional de Medicina do Maranhão (CRM-MA) informou que acompanha a situação da UTI Pediátrica do Hospital da Criança para garantir a segurança da assistência e as condições de trabalho dos médicos. O conselho ressaltou que atua conforme a legislação e que adotará as medidas cabíveis caso sejam constatadas irregularidades.

O Ministério Público Federal (MPF) informou que recebeu a denúncia e que ela será analisada por um procurador da República, responsável por avaliar a adoção das medidas cabíveis para apurar os fatos.

Já o Ministério da Saúde informou que está apurando as denúncias encaminhadas à Ouvidoria sobre as mortes registradas no Hospital da Criança, em São Luís.

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