Julho Roxo

Julho Roxo: cirurgia robótica está revolucionando tratamento do câncer de bexiga

Neste mês dedicado à conscientização sobre o câncer de bexiga, saiba o que é esse tumor, como identificá-lo, quais fatores de risco e as formas de prevenção.

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Em alguns casos, o câncer de bexiga exige a retirada do órgão, em uma cirurgia de alta complexidade. A tecnologia robótica ajuda a tornar o procedimento e a reconstrução urinária mais precisos e seguros.
Em alguns casos, o câncer de bexiga exige a retirada do órgão, em uma cirurgia de alta complexidade. A tecnologia robótica ajuda a tornar o procedimento e a reconstrução urinária mais precisos e seguros.

Sangue na urina, dor ou ardor ao urinar, aumento da frequência urinária, urgência para ir ao banheiro e dor pélvica são os principais sintomas de uma doença que atinge cerca de 13 mil brasileiros por ano, aproximadamente 140 deles no Maranhão: o câncer de bexiga.

Considerado o nono tipo de tumor mais comum no mundo, o câncer de bexiga ainda recebe menos atenção do que outros tipos de câncer. Somente em 2024, a doença provocou 5.483 mortes em todo o país.

A falta de conhecimento sobre o tumor pode contribuir para que os sintomas iniciais sejam confundidos com infecção urinária, pedras nos rins ou alterações benignas da próstata. Com o diagnóstico tardio, as chances de cura diminuem, e podem ser necessários tratamentos muito mais agressivos, como a remoção total da bexiga.

Diante desse cenário preocupante, sociedades médicas e especialistas das áreas de urologia e oncologia, como a Sociedade Brasileira de Urologia, instituíram a campanha Julho Roxo, que busca levar à população informação, conscientização e incentivo ao diagnóstico precoce.

“Quando descoberto nas fases iniciais, o câncer de bexiga apresenta elevadas taxas de cura e, em muitos casos, é possível preservar a própria bexiga. O problema é que muitos pacientes acabam ignorando os primeiros sintomas e procuram atendimento apenas quando a doença já está em estágio mais avançado”, destaca o urologista Sérgio Moura, coordenador do Programa de Cirurgia Robótica e coordenador do Serviço de Urologia do Hospital UDI, da Rede D’Or, coordenador da Residência de Urologia do Hospital Universitário da Universidade Federal do Maranhão (HU-UFMA) e professor de Urologia da UFMA.

Neste mês dedicado à conscientização sobre o câncer de bexiga, conheça mais sobre a doença. Saiba o que é esse tipo de tumor, como identificá-lo, quais são os fatores de risco e as formas de prevenção, além de entender como a cirurgia robótica tem transformado o tratamento.

O que é o câncer de bexiga?

O câncer de bexiga é um tumor que se desenvolve no revestimento interno da bexiga, chamado urotélio. Mais de 90% dos casos correspondem ao carcinoma urotelial. A doença é mais frequente em homens com mais de 60 anos, mas também pode acometer mulheres.

Cerca de 70% a 80% dos pacientes são diagnosticados inicialmente com tumores que ainda não invadiram a camada muscular da bexiga. Nessa fase, as possibilidades de tratamento conservador e de preservação do órgão são maiores.

“Existem dois grandes grupos da doença: o primeiro corresponde aos tumores não músculo-invasivos, que permanecem superficiais e representam aproximadamente 70% dos casos; o segundo grupo é formado pelos tumores músculo-invasivos, quando o câncer invade a camada muscular da bexiga e passa a apresentar maior risco de disseminação. Essa diferença muda completamente o tratamento”, destaca o urologista Sérgio Moura.

O primeiro sinal pode desaparecer, mas a doença não

O sinal mais característico da doença é a hematúria, nome médico dado à presença de sangue na urina. O sangramento pode ser intenso ou discreto, acompanhado ou não de coágulos. Também pode ocorrer apenas uma vez e desaparecer espontaneamente.

O fato de surgir “sem explicação” e desaparecer logo depois é uma das principais causas de demora no diagnóstico.

“Muitos pacientes relatam que o sangramento apareceu durante um ou dois dias e desapareceu espontaneamente; esse é justamente um dos maiores perigos. O desaparecimento do sangue não significa que o problema foi resolvido. Esse intervalo sem sintomas pode transmitir uma falsa sensação de segurança. Minha principal orientação é: quem urinou sangue precisa ser avaliado por um urologista, mesmo que nunca mais tenha acontecido”, explica Sérgio Moura.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) recomenda que tanto a hematúria visível quanto a presença microscópica de sangue detectada em exames sejam investigadas. Isso não significa que toda pessoa com sangue na urina tenha câncer. Existem diversas causas possíveis, entre elas infecções, cálculos, doenças renais e traumatismos. A avaliação especializada é necessária justamente para identificar a origem do sangramento e excluir doenças mais graves.

Cigarro é a principal causa evitável da doença

O principal fator de risco para o câncer de bexiga é o tabagismo. Mais da metade dos casos está diretamente relacionada ao cigarro, e os fumantes apresentam um risco de duas a quatro vezes maior de desenvolver a doença.

A relação pode surpreender porque a fumaça não entra em contato direto com a bexiga. O processo ocorre depois que as substâncias tóxicas absorvidas pelos pulmões chegam à corrente sanguínea. Elas são filtradas pelos rins e eliminadas pela urina, permanecendo em contato com o revestimento interno da bexiga.

“Muitas pessoas não sabem que as substâncias tóxicas inaladas durante o ato de fumar são filtradas pelos rins e eliminadas pela urina. Essas substâncias permanecem em contato com a parede da bexiga durante horas, aumentando progressivamente o risco de desenvolvimento do câncer”, esclarece o urologista Sérgio Moura.

O risco tende a aumentar de acordo com o tempo e a intensidade do consumo. Parar de fumar, mesmo depois de muitos anos, é uma medida importante para reduzir a probabilidade de desenvolver diferentes tipos de câncer e outras doenças relacionadas ao tabaco.

“O cigarro continua sendo o grande vilão. Parar de fumar continua sendo a medida preventiva mais importante”, destaca o especialista.

Além do tabagismo, outros fatores importantes incluem a exposição ocupacional a produtos químicos industriais, como determinados corantes, borracha, couro, tintas, derivados de petróleo, alumínio, ferro, aço, benzeno e fumaça de motores a diesel. Trabalhadores expostos a agentes químicos devem seguir rigorosamente as normas de proteção e os programas de saúde ocupacional.

Fatores como idade avançada, radioterapia prévia na região pélvica e uso de alguns medicamentos também podem elevar o risco.

Infecção urinária comum não “vira” câncer

Uma dúvida frequente entre a população é se uma infecção urinária aparentemente simples, quando não tratada, pode se transformar em câncer de bexiga. Não é correto dizer que uma infecção comum se converte diretamente em um tumor.

O Instituto Nacional de Câncer destaca que infecções urinárias recorrentes precisam ser avaliadas e tratadas para evitar complicações, mas, na maioria das pessoas, não levam ao câncer. O que a literatura médica reconhece é uma associação entre processos inflamatórios crônicos e persistentes da bexiga e alguns tipos menos comuns de tumor.

O cuidado mais importante é não tratar repetidamente sintomas como sangue na urina, urgência ou ardência como se fossem apenas infecções, sem investigar a causa.

“Esses sintomas podem ser confundidos com infecção urinária, atrasando o diagnóstico”, destaca Sérgio Moura.

Diagnóstico define se a bexiga poderá ser preservada

O diagnóstico é feito por meio de exames de urina, ultrassonografia, tomografia computadorizada e outros métodos de imagem. A cistoscopia, porém, ocupa uma posição central: por meio de uma câmera introduzida pela uretra, o médico visualiza diretamente o interior da bexiga.

“O diagnóstico da doença começa pela avaliação clínica. Os exames de imagem ajudam na investigação, mas o exame mais importante é a cistoscopia, que permite visualizar diretamente o interior da bexiga. Quando encontramos uma lesão, realizamos a ressecção transuretral do tumor da bexiga (RTU). Essa cirurgia é feita pela uretra, sem cortes, permitindo retirar completamente o tumor e obter o diagnóstico definitivo por meio da análise anatomopatológica. É esse exame que define a profundidade da invasão e determina todo o tratamento”, explica o urologista.

O médico destaca que, quando o tumor é inicial, muitas vezes é possível preservar a bexiga, e essa é uma das grandes mensagens do Julho Roxo.

“Quando diagnosticado precocemente, o câncer de bexiga frequentemente pode ser tratado sem retirar a bexiga. Nesses casos, realizamos a ressecção endoscópica do tumor. Depois da cirurgia, muitos pacientes recebem aplicações intravesicais de BCG, uma imunoterapia aplicada diretamente dentro da bexiga que reduz significativamente o risco de recorrência. É um tratamento altamente eficaz e que permite preservar o órgão na maioria dos pacientes. Por isso, o diagnóstico precoce faz tanta diferença”, ressalta Moura.

Mesmo depois do tratamento de um tumor superficial, o acompanhamento deve ser rigoroso. O câncer de bexiga apresenta uma característica particular: pode reaparecer. Por isso, consultas, cistoscopias e exames periódicos são definidos conforme o risco individual.

O que acontece quando o tumor invade a musculatura

Quando o tumor invade a musculatura da bexiga, há maior risco de disseminação para os linfonodos e outros órgãos. Nesse caso, a cirurgia passa a ser o tratamento mais importante.

Para pacientes em condições clínicas adequadas, uma das principais estratégias com intenção de cura é a realização de quimioterapia antes da operação, chamada neoadjuvante, seguida da cistectomia radical. A cirurgia retira a bexiga, os tecidos adjacentes e os linfonodos da pelve. Existem, ainda, protocolos de preservação da bexiga que combinam ressecção do tumor, quimioterapia e radioterapia, indicados após uma avaliação criteriosa.

“Nos tumores músculo-invasivos, o tratamento muda completamente. Nessa fase, a cirurgia considerada padrão-ouro é a cistectomia radical, procedimento em que retiramos completamente a bexiga juntamente com os linfonodos da pelve. Em muitos pacientes, também indicamos quimioterapia antes da cirurgia para aumentar as chances de cura. Mas retirar a bexiga representa apenas parte da operação; depois disso, é necessário reconstruir completamente o sistema urinário. É justamente nesse momento que a cirurgia robótica trouxe uma verdadeira revolução”, destaca o urologista.

Cirurgia robótica amplia a precisão na etapa mais complexa

O urologista Sérgio Moura tem experiência em cirurgia robótica, coordena os serviços de Cirurgia Robótica e Urologia do Hospital UDI, da Rede D’Or, e é professor da UFMA.
O urologista Sérgio Moura tem experiência em cirurgia robótica, coordena os serviços de Cirurgia Robótica e Urologia do Hospital UDI, da Rede D’Or, e é professor da UFMA.

A retirada da bexiga é considerada uma das operações mais complexas da urologia. Além da remoção do tumor, envolve linfadenectomia e reconstrução urinária, com a manipulação cuidadosa dos ureteres e de segmentos intestinais.

“Poucas operações na medicina são tão complexas quanto a cirurgia para câncer de bexiga. Além da retirada completa do tumor, o cirurgião precisa reconstruir todo o trato urinário utilizando segmentos do intestino. É uma cirurgia extremamente delicada, que exige planejamento, precisão e experiência. Nos últimos anos, a cirurgia robótica mudou completamente esse cenário”, explica Moura.

Com a cirurgia robótica, a operação pode ser conduzida por meio de pequenas incisões. O cirurgião controla os instrumentos a partir de um console, visualizando o campo operatório em três dimensões e com alta ampliação.

“Hoje conseguimos realizar toda a cirurgia por meio de pequenas incisões, retirando a bexiga e reconstruindo completamente o sistema urinário sem a necessidade de grandes cortes. Essa evolução representa um dos maiores avanços da uro-oncologia nas últimas décadas”, explica Sérgio Moura.

Os braços robóticos filtram tremores e permitem movimentos articulados, inclusive em regiões profundas e estreitas da pelve. Essas características são particularmente importantes durante a realização de suturas e anastomoses, quando diferentes estruturas precisam ser unidas com precisão.

“A plataforma robótica oferece visão tridimensional em alta definição, ampliação das imagens, instrumentos articulados com movimentos extremamente precisos e maior facilidade para realizar suturas complexas. Essas características permitiram um enorme avanço na etapa mais difícil da cirurgia: a reconstrução intracorpórea”, ressalta.

Um dos avanços mais relevantes é a reconstrução urinária intracorpórea. Isso significa que, depois da retirada da bexiga, o conduto ileal ou a neobexiga são confeccionados inteiramente dentro do abdome, sem a necessidade de exteriorizar grande parte do intestino por uma incisão maior.

“Após retirar a bexiga, precisamos reconstruir uma nova via para a eliminação da urina. Existem duas principais possibilidades: a primeira é o conduto ileal (Bricker), em que utilizamos um pequeno segmento do intestino para conduzir a urina até um estoma na parede abdominal; a segunda é a neobexiga ortotópica, indicada para pacientes selecionados, na qual construímos uma nova bexiga utilizando o próprio intestino e conectando-a novamente à uretra. Essas reconstruções estão entre os procedimentos mais sofisticados da cirurgia urológica”, aponta o médico.

De forma geral, a cirurgia robótica oferece condições ideais para esse tipo de reconstrução, permitindo movimentos extremamente delicados e precisos durante toda a confecção do novo caminho para a saída da urina.

Os benefícios mais importantes são:

• Menor trauma cirúrgico;
• Menor perda sanguínea;
• Menor necessidade de transfusões;
• Recuperação intestinal mais rápida;
• Menor dor no pós-operatório;
• Internação mais curta;
• Retorno mais precoce às atividades.

Tudo isso é feito mantendo rigorosamente os princípios oncológicos necessários para oferecer segurança ao paciente.

“Além da conscientização, vivemos um momento muito especial da urologia. Hoje dispomos de técnicas minimamente invasivas e de cirurgia robótica capazes de tratar um dos cânceres mais complexos da especialidade com alto grau de precisão, permitindo reconstruções intracorpóreas sofisticadas e proporcionando aos pacientes uma recuperação mais rápida, sem abrir mão da segurança oncológica”, destaca o urologista.

Experiência da equipe continua sendo decisiva

A incorporação de um robô ao centro cirúrgico não transforma automaticamente uma operação complexa em um procedimento simples. Os resultados dependem da seleção adequada dos pacientes, do treinamento do cirurgião e de uma equipe multidisciplinar preparada para acompanhar o pré-operatório, a cirurgia e a recuperação.

A tecnologia é uma ferramenta, mas o que faz a diferença é a experiência dos profissionais.

“Ao longo dos últimos anos, tivemos a oportunidade de desenvolver uma sólida experiência em cirurgia minimamente invasiva para o tratamento do câncer de bexiga. Grande parte dessa trajetória foi construída por meio da videolaparoscopia, realizando reconstruções urinárias totalmente intracorpóreas, um dos maiores desafios técnicos da urologia. Essa experiência permitiu consolidar uma curva de aprendizado importante em reconstruções complexas do trato urinário, envolvendo tanto o conduto ileal (Bricker) quanto a neobexiga ortotópica”, destaca Sérgio Moura.

O especialista ressalta ainda que, mais do que uma mudança na forma de operar, a cirurgia robótica representa uma evolução na qualidade da reconstrução. A combinação entre visão tridimensional, precisão dos movimentos e melhor ergonomia permite realizar procedimentos extremamente complexos com um nível elevado de refinamento técnico.

“Com a evolução da cirurgia robótica no Maranhão, foi possível incorporar toda essa experiência à plataforma robótica. É motivo de grande satisfação participar desse momento da urologia maranhense e poder oferecer aos pacientes um tratamento comparável ao realizado nos principais centros especializados do Brasil, sem que precisem sair do estado”, comemora.

O cuidado não termina com o fechamento das incisões. Nutricionistas, enfermeiros, fisioterapeutas, oncologistas, estomaterapeutas e outros profissionais participam da preparação e da reabilitação. Pacientes que recebem um estoma precisam aprender a cuidar da bolsa coletora. Aqueles submetidos à neobexiga passam por um processo de adaptação urinária e, em alguns casos, por treinamento do assoalho pélvico.

Informação ainda é a primeira tecnologia contra o câncer

Muito além da tecnologia, é importante destacar que a cirurgia robótica não substitui o cirurgião. “Os melhores resultados dependem da combinação entre tecnologia, planejamento, conhecimento anatômico, treinamento contínuo e uma equipe multidisciplinar preparada para acompanhar o paciente em todas as etapas do tratamento”, destaca Moura.

Apesar dos avanços cirúrgicos, medicamentosos e diagnósticos, a mensagem central do Julho Roxo permanece simples: reconhecer os sinais e procurar atendimento precocemente.

Não existe, atualmente, recomendação de rastreamento populacional do câncer de bexiga para pessoas sem sintomas. Isso torna a atenção aos sinais clínicos ainda mais relevante. O sangue na urina, mesmo que indolor e isolado, deve ser investigado.

“O câncer de bexiga é uma doença que pode ser curada. Quanto mais cedo for o diagnóstico, maiores serão as chances de preservar a bexiga e alcançar excelentes resultados. Por isso, deixo um alerta para toda a população: nunca ignore sangue na urina, mesmo que aconteça apenas uma única vez. Esse pode ser o primeiro sinal de um câncer de bexiga em fase inicial”, resume Sérgio Moura.

Para o urologista, a evolução da cirurgia robótica deve ser compreendida como parte de uma mudança mais ampla, que combina prevenção, diagnóstico precoce, tratamento oncológico e reconstrução funcional.

“O maior avanço da medicina não é apenas retirar um tumor. É oferecer cura, qualidade de vida e devolver esperança ao paciente. É esse o verdadeiro significado da evolução da cirurgia robótica no tratamento do câncer de bexiga”, finaliza.

CRM – MA 6809

RQE – 3220

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