COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão e pós-graduado em Direito. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

O menino das chuteiras emprestadas conquistou a Holanda

Houve ruas simples, campos de terra, traves improvisadas e uma infância em que o talento caminhava ao lado das dificuldades.

Vítor Sardinha

- Atualizada em 04/08/2026 às 15h31
O menino das chuteiras emprestadas conquistou a Holanda.
O menino das chuteiras emprestadas conquistou a Holanda. (Divulgação)

Quando o jogador Wesley Patati marcou um golaço na vitória do AZ Alkmaar sobre o PSV e ajudou o clube a conquistar a Supercopa da Holanda, quem comemorou não foi apenas a torcida holandesa. Em Presidente Dutra, a notícia teve um significado especial. Era um filho da terra mostrando ao mundo que os sonhos também podem nascer longe dos grandes centros.

Antes da Europa, houve o interior do Maranhão.

Houve ruas simples, campos de terra, traves improvisadas e uma infância em que o talento caminhava ao lado das dificuldades. Wesley nem sempre tinha chuteiras próprias. Muitas vezes jogava com pares emprestados, maiores que seus pés. Corria tentando se adaptar ao que tinha, arrancando brincadeiras dos amigos, que diziam que ele parecia um palhaço. Foi assim que nasceu o apelido “Patati”. Um nome que surgiu da simplicidade de uma infância humilde e que, anos depois, cruzaria o oceano estampado nas costas de um jogador brasileiro.

Naquela cidade do centro do Maranhão, muita gente conhece histórias parecidas. Mudam os nomes, mudam os caminhos, mas quase sempre existe uma infância marcada por limitações e pela vontade de construir um futuro melhor. Talvez seja por isso que essa conquista tenha sido recebida como uma vitória coletiva. Ela lembra que grandes trajetórias nem sempre começam nos grandes centros.

O gol só aconteceu na Holanda. A história começou muito antes, nos campos onde aquele menino aprendeu a jogar sem reclamar das dificuldades, improvisando quando faltava quase tudo, menos a vontade de seguir em frente.

Vivemos um tempo em que o sucesso costuma aparecer pronto. As redes sociais mostram o gol, a medalha e o troféu, mas escondem os dias em que ninguém aplaudia, os treinos silenciosos, as derrotas e as pequenas humilhações que muitos transformam em força para continuar.

Há, neste momento, crianças correndo pelas ruas de pequenas cidades maranhenses com bolas gastas e sonhos enormes. A trajetória de Patati lembra a elas que o lugar onde nasceram não precisa determinar o lugar onde vão chegar.

Cada partida disputada na Europa leva um pouco daquela cidade do interior junto. Não porque ela esteja em campo, mas porque faz parte da história que conduziu aquele garoto até ali. Cada gol devolve aos seus conterrâneos a certeza de que a esperança também pode nascer nas ruas mais simples, crescer entre dificuldades e, um dia, encontrar o mundo.

No fim, o apelido permaneceu. As chuteiras mudaram. O menino cresceu.

E talvez a maior conquista não seja o troféu erguido na Holanda. Seja a lembrança de que um garoto nascido em Presidente Dutra, que um dia calçou chuteiras emprestadas porque eram as únicas que havia, hoje inspira outras crianças do interior do Maranhão a acreditarem que nenhuma origem é pequena quando o sonho é grande o bastante para seguir correndo, mesmo quando os pés ainda não alcançam o tamanho do futuro.


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