Euges Lima
COLUNA
Euges Lima
Euges Lima é historiador, professor, bibliófilo, palestrante e ex-presidente do IHGM.
ELEIÇÕES

Por que Lula perdeu votos no Maranhão e no Nordeste?

O primeiro ponto para compreender essa mudança é que 2022 foi uma eleição excepcional. Lula era candidato de oposição e enfrentava Jair Bolsonaro, então presidente.

Euges Lima

- Atualizada em 07/10/2026 às 10h16
O candidato do Partido do Trabalhadores ainda tem muita força no Nordeste. (Foto: Imagem gerada por IA)
O candidato do Partido do Trabalhadores ainda tem muita força no Nordeste. (Foto: Imagem gerada por IA)

As eleições de 2026 deixaram um importante recado para a política brasileira: Lula continua sendo a principal força eleitoral do Nordeste, mas perdeu parte da vantagem que possuía em 2022. Não houve uma derrota do presidente na região — Lula venceu nos nove estados nordestinos —, mas uma redução de sua hegemonia eleitoral. No Maranhão, essa retração foi particularmente significativa: Lula passou de 68,84% dos votos válidos em 2022 para 63,99% em 2026, uma queda de 4,85 pontos percentuais. Em números absolutos, foram 2.603.454 votos em 2022 contra 2.566.301 em 2026.

O fenômeno maranhense acompanha uma tendência regional. Lula obteve aproximadamente 21,49 milhões de votos no Nordeste em 2026, contra cerca de 21,75 milhões em 2022. A redução absoluta não foi muito grande, mas sua participação percentual caiu em todos os nove estados. Ao mesmo tempo, a direita cresceu. Flávio Bolsonaro recebeu aproximadamente 10,4 milhões de votos no Nordeste, contra 8,79 milhões obtidos por Jair Bolsonaro em 2022. Foram mais de 1,6 milhão de votos adicionais. No Maranhão, Flávio conquistou cerca de 255 mil votos a mais que seu pai quatro anos antes.

O primeiro ponto para compreender essa mudança é que 2022 foi uma eleição excepcional. Lula era candidato de oposição e enfrentava Jair Bolsonaro, então presidente. A disputa assumiu forte caráter plebiscitário. Para milhões de eleitores, votar em Lula significava também rejeitar Bolsonaro. No segundo turno daquele ano, Lula alcançou 69,34% dos votos válidos no Nordeste. Em 2026, entretanto, a situação era outra: Lula era o próprio governo e buscava a continuidade. O eleitor passou a avaliar diretamente sua administração. Como explica Fiorina (1981), a avaliação retrospectiva do governo é um componente importante do comportamento eleitoral.

Outro fator é a economia percebida. O problema é que indicadores macroeconômicos não necessariamente correspondem à percepção cotidiana da população. O eleitor não vota apenas observando o PIB ou as estatísticas de emprego. Ele sente o preço dos alimentos, do aluguel, da energia, do transporte e dos medicamentos. Pesquisa Datafolha realizada em 2026 mostrou um governo ainda bastante dividido na avaliação popular, com 41% de avaliação negativa e 35% positiva.

No Maranhão, essa questão possui especial importância. O estado continua apresentando problemas estruturais de pobreza e desigualdade, embora tenha registrado avanços sociais. Segundo o GAEPP/UFMA (2026), a pobreza e a extrema pobreza permanecem entre os principais desafios maranhenses. Isso significa que programas sociais continuam relevantes, mas não garantem automaticamente o voto em Lula. O eleitor pobre também compara governos, avalia prefeitos e governadores, considera a segurança pública, a religião, o emprego e suas próprias expectativas.

Durante muito tempo, uma interpretação simplificada associou pobreza, Bolsa Família e voto em Lula. A realidade eleitoral de 2026 mostra que essa equação é insuficiente. O eleitorado popular possui autonomia. Pode reconhecer a importância de programas sociais e, ao mesmo tempo, votar em outro candidato para presidente. Pode votar em Lula para um cargo e em um candidato de direita para outro. O chamado voto casado perdeu força.

A transformação religiosa também ajuda a explicar a mudança. O crescimento das igrejas evangélicas criou novas redes de sociabilidade e novas formas de circulação das informações políticas. Isso não significa que todos os evangélicos sejam de direita, mas pesquisas mostram maior resistência a Lula nesse segmento. Em 2026, o Datafolha registrou aprovação do trabalho presidencial significativamente maior entre católicos do que entre evangélicos. A política passou, portanto, a ser disputada também dentro das igrejas, das redes sociais e das comunidades digitais.

Outro elemento é a transformação geracional. Muitos jovens que votaram em 2026 não possuem memória adulta dos primeiros governos Lula. Nasceram ou cresceram durante as crises políticas e econômicas da última década, o impeachment de Dilma Rousseff, o governo Bolsonaro, a pandemia e a intensa polarização das redes sociais. Para essa geração, Lula não representa necessariamente a mesma experiência histórica que representa para quem viveu os anos de 2003 a 2010. A memória política, portanto, também envelhece.

No Maranhão, a ascensão de lideranças locais demonstra outra mudança. A expressiva votação de Eduardo Braide em São Luís, em 2024, e sua eleição para o governo estadual em 2026 revelam um eleitorado menos dependente das antigas estruturas partidárias. Isso não significa que os eleitores de Braide sejam necessariamente bolsonaristas ou que seu voto possa ser transferido automaticamente para a eleição presidencial. Significa, porém, que o eleitor maranhense está fazendo escolhas mais independentes para diferentes cargos.

A direita também mudou. Em vez de depender exclusivamente do antipetismo, passou a trabalhar com temas como segurança pública, impostos, liberdade, religião e custo de vida. As redes sociais permitiram que essas mensagens chegassem diretamente aos eleitores, sem depender da televisão ou dos grandes partidos. O crescimento de Flávio Bolsonaro em todos os estados nordestinos mostra que a direita conseguiu ampliar sua presença na região, embora ainda esteja longe de derrotar Lula.

Por isso, interpretar os resultados de 2026 como “o Nordeste abandonou Lula” seria um erro. O que ocorreu foi mais complexo: o Nordeste continuou lulista, mas tornou-se mais competitivo. A vantagem diminuiu porque uma parcela do eleitorado passou a avaliar o governo de maneira diferente, enquanto a oposição conseguiu mobilizar novos segmentos.

O caso maranhense é especialmente revelador. Lula continua extremamente forte no estado, mas sua vantagem caiu quase cinco pontos percentuais. Isso mostra que a fidelidade eleitoral não é permanente. Como observou Singer (2012), o lulismo reorganizou profundamente as bases sociais da política brasileira; entretanto, nenhuma identificação política permanece imóvel diante das transformações sociais.

O principal recado das urnas para Lula, portanto, não é que o Nordeste deixou de ser seu principal reduto. É que essa região mudou. O eleitor nordestino está mais informado por diferentes fontes, mais influenciado por novas lideranças, mais plural do ponto de vista religioso e mais exigente em relação aos resultados do governo.

A política social continua importante, mas já não é suficiente. O eleitor quer renda, emprego, segurança, saúde, educação, infraestrutura e perspectivas de futuro. Quer perceber essas melhorias no cotidiano. É nesse ponto que está o verdadeiro desafio do lulismo.

Historicamente, nenhuma hegemonia eleitoral é eterna. Lula ainda possui uma enorme vantagem no Nordeste, mas as eleições de 2026 mostram que essa vantagem não pode mais ser considerada garantida. O eleitor nordestino não virou as costas para Lula. Ele apenas deixou claro que voto não é herança: é escolha.


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