Desde que o mundo é mundo
A história tem o inconveniente hábito de estragar os "desde sempre".
Outro dia, numa dessas conversas aleatórias que começam com a classificação do Flamengo na Libertadores e, quando mal percebemos, caminham por outros trilhos taquicárdicos (sobretudo a uma semana das eleições presidenciais), ouvi uma frase de um amigo:
— Mas, siô, isso é assim desde que o mundo é mundo! Desde sempre! Sempre foi assim! Tradição não se discute!
Era a defesa intransigente da família tradicional: pai, mãe e filhos. Sim, no plural, pois um só filho não seria o mandamento esperado de Deus.
O curioso é que poucas expressões parecem encerrar tão rapidamente uma discussão quanto “sempre foi assim”. Diante dela, quase não haveria mais o que argumentar. Se sempre foi, deve haver alguma razão. Se atravessou séculos, deve ser natural. Se nossos avós pensavam assim, talvez os avós deles também pensassem. E, seguindo essa linha imaginária para trás, chegamos a um passado tão distante que aquilo deixa de parecer história e começa a parecer natureza, uma suposta ordem natural das coisas.
A conversa com o amigo tinha percorrido futebol, filhos e casamento antes de chegar às concepções de família. E só chegou a esse ponto porque, em dado momento, estávamos falando sobre um casal homoafetivo que ia buscar os filhos na escola. Ele se incomodou e começou a defender que família mesmo seria aquela formada por pai, mãe e filhos. Emendou dizendo que existem papéis próprios para homens e outros reservados às mulheres.
Foi pensando nisso que me lembrei do Manual do Desachismo, de Cristiano Bodart. Ao discutir o slogan “Deus, Pátria e Família”, Bodart recupera uma ideia importante: tradições não são objetos intactos que atravessam os séculos dentro de uma caixa. O que chega até nós são modelos, símbolos, valores e significados selecionados e transmitidos entre gerações. E, nessa travessia, muita coisa fica pelo caminho.
Bodart propõe uma imagem interessante: é como olhar uma fotografia antiga de família. Estão todos arrumados para a foto. Alguém sorri. As crianças parecem comportadas. A imagem envelhece, ganha uma moldura e, décadas depois, passa a representar “como eram as famílias antigamente”.
A fotografia, porém, não mostra tudo. Não mostra necessariamente quem podia falar e quem precisava calar. Quem mandava e quem obedecia. Quem tinha dinheiro próprio e quem dependia de alguém para sobreviver. Quem pôde escolher o casamento e quem permaneceu nele porque simplesmente não havia como opinar ou para onde ir. Muito menos mostra quem sequer poderia aparecer naquela fotografia porque sua maneira de amar, desejar ou constituir família precisava permanecer escondida.
Talvez seja esse um dos perigos da nostalgia: confundir a beleza da fotografia com a realidade inteira daquele tempo. É também por isso que expressões como “Deus, Pátria e Família” possuem tanta força. As três palavras parecem apontar para coisas eternas, anteriores a nós e, justamente por isso, colocadas muitas vezes acima da discussão. Deus remete ao sagrado; pátria, ao pertencimento; família, ao afeto. Quem seria contra Deus, contra seu país ou contra sua própria família?
O problema começa quando alguém se apropria dessas palavras para determinar qual Deus deve orientar a vida de todos, quem pertence verdadeiramente à pátria e qual família merece ser reconhecida como família. Talvez não seja por acaso que, nesse discurso, família quase sempre apareça no singular.
Na reflexão de Bodart, a tradição pode deixar de funcionar apenas como memória e servir também à legitimação de relações de poder e dominação. E isso nem sempre acontece pela força. Às vezes, funciona de maneira muito mais eficiente: ensinando cada pessoa a vigiar a si mesma e, de quebra, a vida dos outros.
O menino aprende como um homem “deve” se comportar para ser “homem”. A menina aprende aquilo que se espera de uma “mulher de família”. O vizinho observa o casal. A família comenta a roupa. Alguém fiscaliza o desejo alheio. E todos podem acabar reproduzindo regras cuja origem já nem sabem explicar.
Quando alguém pergunta por quê, surge a resposta perfeita:
— Porque sempre foi assim.
Entretanto, o “desde sempre”, visto de perto, sempre esteve atravessado por tensões e paradoxos. O mundo nunca foi uma coisa só. A história tem o inconveniente hábito de estragar os “desde sempre”.
As famílias nunca foram todas iguais. Homens e mulheres nunca couberam perfeitamente nos papéis que lhes foram reservados. Pessoas amaram outras pessoas mesmo quando lhes disseram que aquele amor não deveria existir. Mulheres resistiram mesmo quando a obediência lhes era apresentada como virtude. E aquilo que durante séculos foi chamado de “papel natural da mulher” incluía, convenientemente, sua submissão social, jurídica, econômica e política. Também isso, afinal, “sempre foi assim”. Durante muito tempo, mulheres não votavam nem administravam a própria vida em condições de igualdade com os homens. Historicamente, foram afastadas dos espaços de poder e confinadas ao trabalho doméstico e ao cuidado. Ao mesmo tempo, movimentos feministas tensionaram essa ordem e, por meio de muita luta, foram fundamentais para a conquista de direitos e para profundas transformações sociais.
Relações entre pessoas do mesmo gênero, por exemplo, não foram inventadas pela modernidade nem nasceram com aplicativos de relacionamento, paradas do orgulho LGBTQIAPN+ ou debates contemporâneos sobre direitos. Há registros delas em sociedades muito antigas, inclusive na Grécia. A própria família, apresentada tantas vezes como uma instituição imutável, assumiu formas diferentes conforme o tempo, a cultura, a religião, as necessidades econômicas e as relações de poder. Durante muito tempo (e ainda hoje), pessoas homossexuais foram perseguidas, criminalizadas, patologizadas ou obrigadas a esconder quem eram. Ao mesmo tempo, ativistas e movimentos LGBTQIAPN+ foram responsáveis por importantes avanços no reconhecimento de direitos.
O fato de uma violência ou de uma exclusão ser antiga não a transforma em natureza. Pode apenas transformar a violência em tradição e a exclusão em mecanismo de manutenção da ordem dominante. Ao longo da história, determinadas maneiras de organizar o mundo foram apresentadas como se fossem as únicas maneiras possíveis de viver nele. E uma das formas mais eficientes de conservar relações de poder talvez seja justamente convencer os outros de que aquilo que foi construído pela história nasceu pronto com a natureza.
Porque, quando alguma coisa parece natural, ninguém precisa mais explicar por que ela deve continuar existindo.
Basta dizer:
— Sempre foi assim.
Mas a história, felizmente, insiste em responder:
— Não é bem assim.
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